André TeixeiraCENA DE RUA


EM DEFESA DO URUBU
O urubu está meio perdido aqui na Cidade. Tem fama de bandido e cara de prontuário. Nos desenhos animados, nas histórias infantis e na cabeça de Walt Disney, é sempre vilão. A lenda o considera primo do corvo de Poe, portanto mensageiro de maus bocados. Mas é irresistível a tendência de se simpatizar com os oprimidos (atitude de vaga inspiração marxista). Gosto do urubu, que dele é o reino dos céus. Esse simpático bicho sofre tola discriminação por dois motivos: feiúra e hábitos alimentares. E, no entanto, o urubu é tão ave quanto a galinha, o faisão, o falcão, o condor, o beija-flor, o pintassilgo, o rouxinol, o uirapuru e o Pato Donald. Se ele deglute restos e outros comem alpistes, isso muda o caráter do pobre animal? Pelo contrário: ao comer o podre, ele faz a higiene da natureza, torna-se um ecologista lixeiro de asas. O verbo urubuzar não tem sentido, além de ser mais feio que o próprio bicho. Solitário no alto do prédio, isolado pelos séculos de opressão, ele observa a Cidade. Urubus do mundo, uni-vos!
(Paulo Briguet)

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