CENA DE RUA


Mário César
O DIA EM QUE LONDRINA PAROU
Segunda-feira, seu nome é trabalho. Mas não precisa sentir vergonha por ter estado vazia e silenciosa: o feriado caiu bem em você. Enquanto todas as cidades se levantavam para o dia em que o preto na folhinha é mais preto, Londrina no começo da semana teve 24 horas de descanso - foi o Dia da Padroeira. O Calçadão, em geral formigueiro barulhento, virou deserto.
Segunda-feira, seu destino é ser dia útil, seu mentor é o capitalismo. Mas então sumiram os despertadores, os aromas de pipoca e cachorro-quente, as investidas do Sombra, as argumentações do poeta de rua, os sapateiros repetindo o vai-graxa-freguês?, o entra e sai dos ônibus e nos ônibus, o grupo de música peruana tocando ‘‘Let It Be’’, o pastor pregando ao vento, as caras de sono na fila do banco, os hippies vendendo brincos, os mendigos administrando a miséria, os engravatados e suas pastas com informações ultra-sigilosas, as canções de Natal em versão pagode, as estudantes comendo X-salada, o rosto conhecido na cadeira de rodas, a eterna odisséia para sugar oxigênio e liberar gás carbônico.
A rotina londrinense se congelou, como se tudo fosse um jogo e alguém tivesse gritado: ‘‘Estátua!’’ E você, segunda-feira, graças à Padroeira, deixou de ser o mais difamado dos dias. Até semana que vem.
(Paulo Briguet)

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