Ninguém sabe para onde vão as flores. Só o florista. Talvez para uma festa-surpresa, onde o aniversariante foi obrigado a se vestir de palhaço e está com um ovo quebrado na cabeça. Para o banco, onde a moça do caixa será surpreendida pelo presente de um cliente gamado e anônimo. Para o hospital, onde está o Zé que quebrou o pé. Para o gabinete de uma grande empresa, onde o poderoso recebe agrado do puxa-saco de plantão. Para a esposa brava, pois o marido fez o favor de esquecer o aniversário de casamento ontem. Para o garoto de 17 anos que passou de ano, mas dificilmente passará no vestibular. Para uma mulher que não está em casa e não estará nos próximos dois anos, casou com um nissei, virou dekassegui e já está apertando parafuso na Toyota. Para decorar uma mesa de seminário onde os palestrantes vão brigar muito, culpar o Estado e a sociedade como um todo, exigir sérias providências, formar uma comissão e ir embora para casa. Para um conjunto de heavy metal, onde o vocalista vai dar o show e comer as flores ao final da música ‘‘Metástase da podridão vampiresca’’, principal faixa do CD ‘‘Caveira sangrenta de Goebbels’’. Para um cachorro. Para um homem que mandou flores para si mesmo, na esperança de esquecer o que fez e não reconhecer a letra do próprio bilhete. Para a floricultura, pois o destinatário recusou o presente. Para um bar, onde o vegetal será regado a cachaça e inexplicavelmente crescerá. Para uma impossibilidade e um erro. Para um acerto e uma necessidade. Para onde vão as flores, ninguém sabe. Talvez nem o florista.
(Paulo Briguet)

mockup