Cena de rua
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de novembro de 1997
ELE NÃO É SCHUMACHER 
Quem está ao volante é um velhinho sem pressa. Segue impassível, guardando o limite de 40 km/h. Raramente engata marchas velozes - pra que tanta afobação? É um motorista raro, quase extinto na antiecologia do trânsito: eis um chofer que respeita a lei! Sem pisar fundo, o velhinho vai solitário. Melhor perder um minuto na vida do que a vida num minuto, como dizia meu avô. Enquanto isso, Londrina pega as chaves, dá a partida, engata a primeira, a segunda, a terceira, a quarta, a quinta, anda, acelera, corre, voa, tropeça, freia, xinga, roda, amassa, fere, morre e continua, sabe-se lá como. Nesse autódromo da barbeiragem, nessa arena da trombada, muitos disputam belicamente os milésimos de segundo, como se um simples trajeto urbano fosse teste de Fórmula 1, como se Londrina fosse Mônaco em dia de GP. Para muito Michael Schumacher depois da gripe, como vemos por aí, o velhinho é meramente um retardatário a ser ultrapassado. Arrisca-se a ser chamado de ET, pois é leito na Cidade onde a fauna marciana ativa as turbinas. Onde os garotos empinam suas motos. Onde os pirados tiram racha. Onde as caminhonetes cantam pneus. Onde os exibicionistas fazem cavalo-de-pau. Onde os donos da rua costuram. Onde as mamães fazem fila dupla. Onde os semáforos piscam inutilmente. Onde os motores envenenados roncam. Cidade onde o Siate grita uma sirene preocupada e tenta salvar os feridos. Em meio a todo o caos, o velhinho desfila tranquilidade. Sem encontrar nas lojas um adesivo que se aproximasse de sua mensagem, ele usou a criatividade e confeccionou uma plaqueta de aviso. Na calma do pára-brisas, ele pede desculpa por seguir a lei. Pede desculpas, sem medo de ser precavido e seguro como a tartaruga. Pede desculpas por não ser Michael Schumacher. Devagar e sempre - ainda que só.


