Cena de rua
Milton DóriaCENA DE RUA
O PESCADOR
DE CENTAVOS
Só faltava essa. Depois do pesque-e-pague, lançaram o pesque-e-receba. O resultado dessa fisgada não é peixe. É cara, coroa. A vara se transformou em simples fio de nylon. A minhoca acabou trocada pelo ímã. Como na beira do rio, o praticante do esporte precisa ter paciência. Há um verdadeiro Banco Central paralelo nos subterrâneos de Londrina (juro que não é mentira!). Você nunca parou e olhou para o interior de bocas-de-lobo, respiradouros, esgotos, garagens, buracos e sistemas de ventilação da Cidade? Não sabe o que está perdendo. Esses recantos não muito aprazíveis ocultam cardumes de moedas. O rio urbano tem de tudo: dos lambaris-um centavo aos pirarucus-um real, passando pelas tilápias-dez centavos e, por que não?, os cascudos-fichas telefônicas. Quem sabe até uma correntinha-piapara, se o dia for de sorte. Relógio-pintado, às vezes. O pescador de moedas vai no vácuo. Herói da economia informal, ele vive dos esquecimentos, dos deixa-pra-lá, dos descuidos, dos trocos rejeitados, dos bolsos furados, daquela moedinha que foi rolando pela calçada até cair. Agachado porém aplicado, o pescador vislumbra a fonte de renda. Agora, silêncio. Acho que tem uns cinquenta centavos beliscando aqui.
(Paulo Briguet)





