Josoé de CarvalhoCENA DE RUA


ARIDEZ NA PRAÇA
A praça Rocha Pombo, coração de Londrina, está seca. Fechou as torneiras. Desligou o chafariz. Bloqueou a fonte. Esvaziou a piscina particular dos meninos de rua. Não acredito que a praça tenha esquecido de pagar a conta da Sanepar. Talvez seja apenas o momento de limpar o lodo. A praça Rocha Pombo virou deserto, nesta primavera mais verão que janeiro. Ela está limitada ao sul pelo Museu de Arte de Londrina, antiga Rodoviária, prédio agora refugiado atrás das grades, por má relação com a vizinhança. Ao norte, também meio desconfiado da praça, está o Museu Histórico Padre Carlos Weiss, antiga Estação Ferroviária. A memória e a arte, o passado e a rotina, com seus problemas interiores, observam com temor a aridez da Rocha Pombo. Conferem a secura do lugar. Contemplam o cimento quente do passeio público. Ao leste, ao oeste, proliferam os camelôs. Todos ocupados, ninguém pergunta: onde foi parar a última gota da praça Rocha Pombo?
(Paulo Briguet)

mockup