Cena de rua
CENA DE RUA
Josoé de CarvalhoDIÁRIO DE UM HIDRANTE
Parado na esquina eternamente, tenho CEP na rua da Amargura. Sou a maior vítima da poluição e da violência urbanas. Ainda bem que me fizeram de metal; caso contrário já teria morrido com as batidas de carro. Nem lembro quando me usaram pela última vez para esguichar água. Eu era tão heróico no combate a incêndios! Gêiser inativo há anos, hoje tornei-me obstáculo no caminho dos pedestres. Fui pintado com este vermelho de gosto duvidoso. Exerço humilhante papel de banheiro (não exclusivo) da cachorrada. Respiro o cinzento ar dos escapamentos, que quase dá para pegar com a mão, se eu tivesse mão. O pior é ter que olhar o dia inteiro para essa parede lamentável, onde gerações e gerações de cartazes se acumulam numa sopa de letras, colas, fotos e rasgos. Poluição visual, residual, mental. Triste casa é a minha, diário.
(Paulo Briguet)





