Antes, era o mato. Depois, vieram os homens, mulheres, crianças. Durante, sempre esteve ela. A árvore é testemunha da chegada. Do alto do morro, há dez anos ela especula o surgimento dos barracos, verdadeiros milagres da engenheira popular. Com seus troncos e galhos secos, ela é vizinha de ruas vermelhas, ônibus asfixiantes de uma em uma hora, trabalhadores sem café da manhã, botequins minúsculos, ocupações epidêmicas, quadras numeradas, cinzentas viaturas, fossas cavadas na pedra, futebol aos sábados, suadas conquistas. A velha árvore já se acostumou a tudo. O jardim União da Vitória, chão duro como concreto ao Sul de Londrina, não é mais circunstância passageira - é fato consumado. Como defini-lo, não sei. Abrigo vulnerável? Casa das necessidades? Eterno estigma da pobreza? Confim da suposta terra prometida? Bússola social de Londrina? Antítese do bairro classe A? A resposta é difícil. Vamos só deixar a árvore posar ao lado de seus companheiros. Sob o tempo fechado, ela é o símbolo do jardim humano.
(Paulo Briguet)

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