Cena de rua
CENA DE RUA
Mário CésarBOM-DIA, MENINOS
Já é hora de acordar, meninos. É hora de acordar e saber que o homem ri à toa, e isso não o torna milionário. Que o homem é social mas vive sonhando com a fuga. Que o homem trabalha, tem um modo de produção, e tem um modo de exclusão. Que o homem está condenado à prisão perpétua da política. Que o homem possui linguagem, mas insiste em ser incomunicável. Que o homem é o único animal capaz de fixar o horizonte de cabeça erguida e assistir ao pôr-de-sol meio embriagado. Que o homem, quando sóbrio, olha para o horizonte e esquece a calçada, e tropeça. Que o homem é o protagonista da história, ela que se repete como tragicomédia e nunca sai de cartaz, mesmo com as vaias intermináveis. É tempo de acordar, rapazes, e entender que o homem, pai inepto, faz todas as vontades de suas filhas gêmeas: a civilização e a barbárie. Que o homem precisa dormir, comer, beber, olhar quem passa na rua, contar piadas estúpidas. Que o homem, meninos, precisa de conhecimento, justiça, liberdade, feriados, um bocado de ceticismo e um pouco de excesso. Que o homem já produzia riqueza e picaretagem, antes mesmo de dividir espaço com os outros animais no barco de Noé. Que o homem desenvolveu a arte, a literatura, a filosofia, o programa Sílvio Santos e a serra giratória às sete da manhã. Que o homem já foi Aristóteles e já foi Stalin, e pior: Stalin gostava de ler Aristóteles. Que o homem não cria problemas que não possa resolver (como dizia um pensador alemão muito chato e fora de moda). Que o ser humano é animal bípede, vertebrado, mamífero, racional, emotivo e sua temperatura média é de 36,5 graus. E que já é hora de acordar.
(Paulo Briguet)





