O vendedor de artesanato recria um pedaço da década de 60 no chão da praça. Mochila gasta, idéias libertárias na cabeça, ele estende o anacrônico tapete do flower power à beira do passeio público. O hippie da Praça da Bandeira não está nem aí para o estilo de vida atual. Não se prende à ditadura da moda. Dá de ombros para os rumos do império neoliberal, os cataclismas da globalização, as gritarias virtuais da www. Ele só vira um dos algarismos de 1997 e pronto: volta-se ao dia do lançamento do disco Sargeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Temos aí um comerciante despreocupado com o alvará moral dos cidadãos engomados. Alguém cujo comprometimento com o modo de produção capitalista é quase nenhum: se vender uns colares por dia, está bom, vai-se tocando a vida. Por um momento, ele conversa com uma representante da geração anos 90. O hippie e a criança trocam idéias. Sem antagonismo. Até cúmplices. Eles parecem compartilhar visões de mundo na praça.
(Paulo Briguet)

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