Mário CésarCENA DE RUA
EM TORNO DO X
A letra X é uma das lanterninhas do alfabeto (só perde para o Z e - desculpas aos nacionalistas da gramática - para o Y). Mas não importa: os penúltimos serão os segundos. Sabem disso os dois trabalhadores da foto, que cruzaram suas escadas sobre um canteiro da avenida Higienópolis, desenhando no ar a letra que agora discutimos e, com ela, trazendo à luz do dia londrinense uma série de simbolismos. Os operários, lá em cima, falam do X da questão ou aguardam a hora de um X-salada? Lembram do senhor X ou esperam o resultado do raio-X? Não dá para saber. O certo é que as escadas se apóiam no meio da tarde - e o mundo em volta nem percebe (com exceção do fotógrafo). O X mostrado ali é outro nome para problema. Enigma. Núcleo. Ponto. Incógnita. Solução. Partida. Analfabetismo. Marco. Xeque. Versus. Dez. Resposta. Proibição. Alvo. Olhos de morto em desenho animado. A voz do X se encaixa em qualquer lugar e existe em todo canto, sempre excepcional, máxima, tóxica. Enquanto os dois homens consertam algum problema de eletricidade, as escadas se equilibram esperando. Momentos depois, os trabalhadores voltam ao chão. O problema elétrico, resolvido. Conduzidas pelos operários, as escadas vão embora, duas retas cada qual para seu lado. Um X desfeito para sempre, que os consumidores noturnos de eletricidade jamais poderão enxergar no cerne da lâmpada acesa.
(Paulo Briguet)

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