A vizinhança está em alvoroço. José critica. Carlos maldiz. João reclama. Maria se apavora. Cida nunca viu coisa tão feia. Joaquim esbraveja. Mané xinga. Fátima observa, preocupada, que há um colégio de crianças ali perto. Nessas comoções populares, mesmo que restritas, já se sabe qual o fim: alguém chama a polícia. Prendam2esse homem! É a exigência da comunidade. É o slogan que protege os alunos da escola e a gente de família. Passa algum tempo. Os homens da lei chegam. Mas nem a Polícia Militar do Estado do Paraná vê razão em gastar algemas com o personagem da foto. Ele é um homem idoso que dorme ao lado de seu carro. É dono de um automóvel sem pára-brisa, acelerador, vidros automáticos, buzina, sem motor nem turbina, sem registro, sem valr 2na concessionária, sem ar condicionado. O carro do velho só tem um combustível - o velho do carro - e deve-se dizer que estacionou. Agora, longe de qualquer perturbação da ordem, o catador é apenas um velho que dorme no mato, depois de acumular papéis, anos de vida e quilômetros de andanças na memória. Cometeu um ato ilícito há pouco, assombrado por uma nostalgia da puberdade. Talvez. Em virtude das denúncias, or 2pouco o homem não viu o sol nascer quadrado; avaliaram que ele oferecia perigo à comunidade. Pr 2quê? Ferrado em si mesmo,2na companhia do carro de mão, ele só ouve falas esparsas, gritos desconexos, uma sirene vacilante. Na confusão auditiva do sétimo sono, uma pergunta e uma exclamação não o deixam voltar ao dia claro. Prendam2esse homem! Pr 2quê? (Paulo Briguet)

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