CENA DE RUA
Paulo Briguet
Dorme, lambe-lambe que hoje o seu Ohara não vem. Ele sempre foi um colega de profissão e de papo. Nestas esquinas do centro da cidade, o velho de olhos puxados gostava de conversar sobre o funcionamento da câmera e o movimento do mundo. Com uma dessas máquinas aí, ele começou a fazer fotos em 1934. Naquele tempo não tinha asfalto, não tinha cimento, não tinha carro, não tinha banca de revistas, não tinha nem lambe-lambe. Sempre com a máquina ou a enxada na mão, o seu Ohara viu a Londrina grande saindo da Londrina pequena. Hoje o pessoal passa correndo; é até difícil pegar foco. Poucos têm tempo ou dinheiro para fazer fotos e você descansa tranquilamente, lambe-lambe. Desculpe, eu não quis incomodar. Pode continuar dormindo, amigo. Que hoje o seu Ohara não vem.





