‘‘Deitado eternamente em berço esplêndido’’, diz a letra do Hino. O homem que dorme ao lado do cachorro sabe que não é bem assim. Talvez ele tenha visto a letra do Hino na contracapa de algum distante caderno da infância. Teria algum dia conseguido ler a estrofe? Não importa: quem sabe terá ouvido a bela frase em certa comemoração de 7 de setembro, 15 de novembro, 21 de abril ou 31 de março (no passado, comemorava-se esta última data, sempre um dia antes do tempo). Quando a estar DEITADO, o homem concordaria. O ser humano é um animal condenado pela fisiologia do sono a passar 1/3 de sua rápida existência na posição vertical e fazendo movimentos rápidos dos olhos fechados. Ele não foge à regra. A palavra ETERNAMENTE também não ofereceria problemas. Tudo na vida do homem que dorme ao lado do cachorro parece ser eterno, ou estático no tempo. Ele nada de braçadas na rua, mergulhado no rio em que corre sempre a mesma água. Eternamente deitado nas águas, ele descansa sobre o cimento. O Hino, neste caso, apenas fracassaria ao dizer BERÇO ESPLÊNDIDO. O homem que dorme ao lado do cachorro não domina o significado dessas palavras. Não sabe o que elas dizem, a ironia involuntária que elas poderiam provocar. O homem ao lado do cachorro dorme, e com ele o entendimento do Hino, e com ele as sementes da revolta.
(Paulo Briguet)

mockup