Milton DóriaCENA DE RUA
IMAGENS DO TRABALHO - PARTE 1
O homem vê o próprio reflexo no espelho. Quando concluir mais um dia de trabalho, o brilho do Sol poente no edifício será observado até dos aviões que pousam na cidade. Os postos de saúde, as escolas, as ruas escuras, as celas, os acampamentos, os pontos de ônibus e as filas de desempregados são menos evidentes para os aviões. O homem, contudo, vê a própria imagem no espelho. Percebe a cara no vidro. Talvez se pergunte por que tudo parecia mais ou menos tranquilo e de repente mudou na vida de tantos iguais a ele. O limpador de janelas sofre as consequências do golpe que veio de cima, de muito longe, de outros prédios brilhantes e envidraçados. Mas por enquanto nada faz além de trabalhar. Continua responsável apenas por uma tarefa externa, visível a olho nu. Faz bem a sua parte. Usa água e sabão para limpar as janelas. Assim, reflete sobre o mundo no espelho do dia - com o álibi da transparência. Gostaria que o mundo refletido também se desenhasse límpido. Nada disso. O máximo que se vê é o lusco-fusco das seis horas, indicando que mais um dia chegou ao fim.
(Paulo Briguet)

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