TEORIA DA ESPERA
Na janela, o menino espera o tempo passar. Eu também espero muitas coisas: um dia inteiro sem precisar consultar o relógio; aprender a assobiar, fazer bola de chiclete e dirigir automóvel; o fim do verão; você, que sabe muito bem de quem estou falando; ser contratado como cantor de boate; a hora do lanche; ser escalado para goleiro do Palmeiras (titular); contar piada sem graça e mesmo assim todo mundo dar risada; olhar para o lado e saber que já é sábado; a luz da secretária eletrônica piscando no escuro; voltar no tempo e fazer tudo diferente; viajar de Volkswagen conversível; assistir pela sétima vez a um filme de Woody Allen e achar ótimo; ganhar pela primeira vez do meu pai no xadrez; visitar a Irmã Ângela no Externato Casa Pia São Vicente de Paulo; receber uma correspondência, no mesmo dia, do José Saramago e da Rosa Luxemburgo (esta já morreu, mas não importa). Há quem aguarde outras coisas, de modo tão sereno quanto o menino da fotografia. Os seres humanos esperam: o táxi; o ônibus; a carona; emprego; cortes nas despesas; encontrar o chinelo de dedo; em Cristo; pois aquela é a última que morre; recuo do dólar; volta da popularidade; dinheiro da telefônica; telefonema; casa de alvenaria; cura; túnel ser escavado na cela; colher de chá; bilhete azul; a felicidade, mas não apenas como um estado passageiro por volta das seis horas; um gole de cachaça para acabar com a tremedeira; uns caraminguás; muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender; a morte; a liberdade; a merenda; aumento do pedágio; sinal de recreio; aquilo que ninguém jamais ousaria confessar; o dia 10; casamento; divórcio; anestesia; os 45 minutos do segundo tempo; as férias; julgamento civil; ir à sorveteria; considerável quiproquó; os últimos dias da humanidade; nenê; um sinal de Deus. Na janela, o menino também espera. Por incrível que pareça, ainda é tempo.
(Paulo Briguet)

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