Cena de rua
César AugustoOVERDOSE DE SEMÁFOROS
- Então, a Prefeitura de Londrina disse: faça-se a luz. E a luz se fez. Salve! Meu Deus, quantos semáforos. Só até onde eu contei são 11. Isso mesmo: 11! Mas tem mais. É que os outros não couberam na foto.
- Bem que o fotógrafo se esforçou; mas é muita luz pra pouco filme. Muitas, muitíssimas luzes piscantes no cruzamento das avenidas Dez de Dezembro e Portugal. Elas já foram acesas. Que espetáculo! O trecho está fazendo inveja à Disneylândia e às boates noturnas mais faiscantes de Londrina. Parecerá um videogame. Ou um fliperama gigantesco.
- Verdes, vermelhas, amarelas, luzes de virar à esquerda, luzes de virar à direita, ciclos luminosos, luz desse lado, luz do outro lado, luz no meio da pista, luz do pedestre, luz do motorista, luzes, luzes, luzes, postes, postes, postes. Outro dia passou um vendaval e derrubou alguns postes. No dia seguinte, os semáforos estavam de pé outra vez.
- Sei que os engenheiros de trânsito terão mil argumentos técnicos em suas planilhas para justificar uma tal profusão de sinaleiros. (Afinal, os especialistas são eternos conspiradores contra os leigos, já diria Bernard Shaw.) Mas eu arriscaria uma perguntinha aos ventos, mesmo sem ter feito especialização em urbanismo: será que tanta parafernália elétrica não acabaria por confundir o pobre do motorista?
- Sei também que os planejadores do trânsito, quando se esgotarem as justificativas técnicas, invocarão o mais nobre argumento para explicar o coletivo de semáforos. Trata-se da segurança de motoristas e pedestres. Mas eu faria outra perguntinha ao acaso: não haveria maneira menos dispendiosa de proteger eficazmente a vida dos cidadãos?
- Mais uma questão aos ares: será que a overdose de sinais fará diferença para motoristas mal-educados e imprudentes, que vêem em cada um dos semáforos apenas mais um motivo para furá-lo?
- O tempo dirá. Aliás, os três tempos dirão.
(Paulo Briguet)





