César AugustoCENA DE RUA
VIDA BESTA
- Ah, companheiro, a vida está um tédio.
- É. Vida muito parada.
- Há quanto tempo o seu pneu da frente furou?
- Nem lembro.
- E o pior é que andam precisando da gente. A cidade tá assim de crime!
- É mesmo. Que saudade do tempo das diligências! Tempo em que a gente podia trabalhar, rodar por aí de caso em caso.
- Engraçado. De vez em quando saem no jornal aquelas fotos de carros novos da polícia e da criminalística, os pára-choques brilhando, os pneus cheios, o secretário de Segurança bem ao lado, todo mundo com sorriso Colgate.
- Pois é, rapaz, que diferença da gente!
- Ai, minha bateria. Ui, que dor de radiador. Ui, que vontade de beber uma gasosa da boa. Ai, ui, tô com ardume de ferrugem. Acho que vou ficar hipocondríaco.
- Sabe de uma coisa? Não aguento mais olhar pra sua cara.
- E eu, então? você pensa que é fácil encarar esse farol apagado 24 horas por dia?
- Mas não adianta brigar. Eu não vou conseguir sair do lugar mesmo. Nem roncar o acelerador eu posso.
- É mesmo, deixa disso. Acho que vou tirar uma soneca.
- Bom sono. Eu vou ficar acordado, apreciando o movimento do pessoal. Tem cada perua!
- Se a gente ainda tivesse buzina...
(Paulo Briguet)

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