MAMÃE NOEL
O tempo passou. O menino cresceu. Já tinha até entrado na escola. ‘‘Chega de fantasias, ele precisa conhecer a verdade’’, pensou o pai. Chamou o menino de lado, enquanto as luzes piscavam no pinheiro, e declarou em tom grave:
á- Meu filho, Papai Noel não existe.
O garoto nunca se recuperou do golpe.
O tempo passou mais ainda. O filho cresceu e se tornou um homem cético. Na semana passada, o ex-menino estava andando apressado pelo Calçadão de Londrina. Caminhava cheio de preocupações e compromissos. A agenda, lotada. A pasta, abarrotada de papéis. O calor, impiedoso. Retirou um lenço do bolso para enxugar o suor. Quando olhou para o lado, viu a mulher anônima.
Ela não usava roupas vermelhas. Não era auxiliada por renas. Não tinha jeito de morar no Pólo Norte. Mas trazia um saco.
De repente, ela começou a distribuir brinquedos para as crianças do Calçadão. Em vez de utilizar a calada da noite, ou se enfiar pelas chaminés, ela escolheu o dia claro e o lar extenso da rua. O menino índio ficou feliz de levar um carrinho para a reserva. A menina da praça ganhou uma boneca de plástico. As crianças da rua fizeram uma roda em torno da mulher sem nome. Todas ganharam alguma coisa.
O homem cético ficou olhando aquela cena de rua. Tirou o celular do bolso. Ligou para o pai e disse apenas:
- Mas a Mamãe Noel existe.
(Paulo Briguet)

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