Cena de rua
AVES DE RAPINA
O gavião visita a companheira nas margens do Lago Igapó. Não tem medo de ser preso por atentado ao pudor. Nada mais inocente do que o encontro do gavião macho com sua esposa, desdobramento lógico dos apetites do reino animal. Na pretensa civilização, pelo contrário, há despudores imensos. Abusos destacados em outdoors, nulidades infladas pela fisiologia, financiamentos de campanha subterrâneos, gente que ganha sem trabalhar, a moeda como oxigênio, doações ecologicamente homicidas. Esqueça as imoralidades, amigo, e contemple o discreto casal, um milhão de vezes superior aos pornográficos esquemas humanóides. As verdadeiras aves de rapina cometem outras indecências. Na imponência rústica de uma manhã azul, os bichos simplesmente gozam a vida. Ah, se todas as vergonhas do mundo fossem a travessura do gavião-carijó e sua companheira...
(Paulo Briguet)





