Como é difícil atravessar o Rio das Pedras. Olhar para o relógio e ver que faltam apenas 10 minutos para a hora de acordar. Esquecer a chave dentro do carro. Ter que ouvir música sertaneja em alto volume. Ser atropelado. Morrer aos dois anos de idade sem atendimento nos hospitais públicos e filantrópicos. Passar noites com a família num barraco de sem-terra, sendo chamado de vagabundo e arruaceiro. Casar desempregado. Aguentar bajuladores. Pedir uma garota em namoro e ouvir não como resposta. Tentar usar o banheiro do avião durante a turbulência. Não ter troco para o pedágio. Esquecer o guarda-chuva. Apertar a mão do canalha. Plantar e não colher nada. Defender o indefensável e não poder fazer de outra maneira. Morder alguma coisa dura e descobrir que não é uma pedra no feijão - é a obturação. Pensar nas dívidas durante o banho. Esperar durante três horas. Esperar um viajante durante três anos. Viajar para o Japão, como sonho de ficar rico, e não ter dinheiro para voltar. Vomitar sem explicação. Vomitar com explicação. Acertar o joelho na ponta da mesa. Aguentar ressaca de cerveja ruim. Passar o Natal sozinho. Lembrar do compromisso com o chato. Rezar sem vontade. Ficar contente com a quantidade de dinheiro na conta bancária e descobrir em seguida que ela é negativa. Todos nós temos nosso Rio das Pedras a atravessar, como o menino que desafia o perigo para chegar à outra margem. Nós e o menino somos habitantes da Terra das Pedras, até segunda ordem. Como é difícil esperar a segunda ordem. Como é difícil.
(Paulo Briguet)

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