Cena de barco
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de março de 1998
Paulo WolfgangO MAR DE LONDRINA 
O mar de Londrina é pequeno (nele só cabe um barco). Não tem ondas, não tem praia, não tem sal, não tem mar. O mar de Londrina é absurdo. Reúne cartão postal e coliforme fecal. O mar de Londrina é bíblico. Não foi aberto por Moisés, mas foi aterrado pelo ex-prefeito. O mar de Londrina é paradoxal. Tem mansões na orla, meninos de rua na beira. O mar de Londrina é calmo. Exceto quando a luz do dia vai embora e os assaltantes chegam. O mar de Londrina é grande. O suficiente para sugar motoristas imprudentes e nadadores impetuosos. O mar de Londrina é vistoso. Observado às seis da tarde, mostra beleza ao alcance de todos, sem taxa de uso. O mar de Londrina é populoso. Ao seu lado, a garota de walkman desliza em trajes sumários; o executivo de bermudas transpira depois do trabalho; o técnico do IAP mede a balneabilidade; o nosso amigo tenta vender água de coco; o pescador espera a fome do lambari; o cobrador do ônibus observa o relógio e em seguida as águas; o dono do carro sente saudade do tempo em que podia lavá-lo na barragem; o pastor alemão sem coleira assusta os corredores; o artista da bicicleta derrapa e cai na grama; o marido confessa que traiu a esposa no Carnaval; a escola de dança estuda novos passos e preocupa-se com as contas; o peão da Frente de Trabalho enxuga a testa; o fantasma de Burle Marx aparece de vez em quando; o cavalo dá bom-dia e pergunta inutilmente pelo dono; o prefeito contempla o manancial pela fresta do gabinete, com rugas de preocupação; o vereador pensa por alguns instantes no 13º; o calouro de Sociologia tenta curar a ressaca; uma árvore-estátua respira perplexidade e desafia a fotossíntese. Testemunhas de Londrina, os dois marinheiros tudo observam, e o barco prossegue sua viagem mar adentro, sem saber da existência do monstro que dorme nas profundezas do Igapó. Se o monstro existir, e quando o monstro acordar, haverá Cidade, haverá barco, haverá mar?


