CENA DA CIDADE

Warren NabucoARCO-DA-VELHA
Sol e chuva, casamento de viúva. Chuva e sol, casamento de espanhol. A conclusão mais óbvia, portanto, é que o feliz espanhol tenha juntado as escovas de dentes com a elegante viúva, numa dessas tardes de clima incerto em Londrina. O enlace, em comunhão de bens, não foi publicado pela coluna social de nenhum dos nossos jornais, mas fico pensando em quem são os noivos para merecer um presente de casamento tão nobre assim. Nobre ainda mais porque é intocável. Quanto mais você corre para encontrar as sete cores, mais elas fogem. Limite do sol e da chuva, elas se transformam em água ou em luz, conforme o andante curioso se aproxima do fenômeno. O encontro com o arco-íris é uma ilusão: não se esbarra na sua consistência - pois ela não existe, sempre vira tempo cinza ou dia claro. E a história do pote de ouro, faça-me o favor, é uma piada imbecil, uma verdadeira afronta à inteligência humana. Resta observar de longe a linha de 180 graus. Deixar o arco-da-velha ser o que é: uma divisão da Cidade ao meio. Amostra da tinta que a natureza usou para pintar as coisas como se fossem coisas. Aliás, quem é a velha do arco? Cadê essa senhora? Estava na cerimônia de casamento? E foi ela a criadora do jogo da velha? Grandes dúvidas. Quem tiver alguma pista, cartas para a Redação.
(Paulo Briguet)

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