CENA
O SOBE E DESCE DA VIDA Não estão lá platéia de aplausos generosos a algum texto de Sheakspeare ou espectadores com olhos marejados ouvindo a Quinta Sinfonia. Na verdade, faz tempo que ninguém está lá aos olhos da cidade. Ninguém. Se o grande anfiteatro se tornou abrigo da miséria é que todo dia tem alguém que desce nos degraus da vida. A lição já foi aprendida, não chama mais atenção. Se estão descendo, a gente finge não existir. Mesmo que o contingente seja cada dia maior. A gente finge que não vê pernas, não vê braços, não vê cabeça, não vê olhos e não ouve gritos de clemência. O corpo disforme encoberto por um tecido ordinário é algo, uma unidade não-humana que não merece nem ser fitada. A gente gosta de ver quem sobe. E quem sobe, infelizmente, não olha para trás. (Lúcio Flávio Moura)





