Marcos BorgesO maiorJardim da Saudade: fundado em 84, tem 120 mil metros quadradosTudo parece ter começado durante o antigo Império do Egito, a cerca de 4.500 anos. Obcecados pela possibilidade da vida após a morte terrena, os governantes da época - que ostentavam o título de faraós - buscavam a glória e a eternidade erguendo enormes edificações de pedra. As pirâmides serviam para elevar os faraós egípcios mais perto do Céu, de Deus e serviriam - segundo a crença deles - como ponte para a imortalidade.
Entre os católicos, os cemitérios com túmulos e capelas, às vezes suntuosos, são herança do Império Romano. A palavra tem origem latim e significa sementeira, no sentido local que guarda e prepara as sementes para o nascimento de novas vidas, a das almas que irão para o Céu católico. Para os muçulmanos, o local deve ser o mais simples e menos luxuoso possível. Os corpos devem descansar sob a terra sem túmulos, sem mármores, azulejos nem tijolos. E devem estar virados em direção a Meca, a cidade árabe sagrada, em sinal de reverência ao Deus Allah.

Marcos BorgesO mais antigoSão Pedro: totalmente lotado, não possui mais espaço à vendaLondrina - onde morrem, em média, 12 pessoas por dia - conta com sete cemitérios. O único particular e exclusivo para os mortos seguidores de uma única religião é o Islâmico. Outro particular - mas aberto a fiéis de todas as religiões - é o Parque das Oliveiras, propriedade da Sociedade Evangélica. A Administração de Cemitérios e Serviços Funerários (Acesf) possui cinco cemitérios municipais públicos, à disposição de toda a comunidade.
O Cemitério São Pedro - na área central - é o mais velho da Cidade, e também o que abriga o maior número de corpos sepultados. Em funcionamento desde 1932, ele está lotado e não tem mais espaço à venda. Ele conta com 6.946 sepulturas definitivas, das quais 35.367 restos mortais foram exumados ao longo dos anos. A exumação pode acontecer áá- a pedido da família, para abrir espaço para novos mortos - depois de três anos do enterro de corpo adulto e depois de 18 meses do sepultamento de corpo de criança.
O Cemitério São Paulo - no bairro do Aeroporto, zona leste - é o mais novo da Acesf. Inaugurado em 1989, ele foi projetado para 1.009 espaços para sepulturas e já vendeu 565 deles. Outro cemitério público completamente lotado é o João XXIII, no jardim Higienópolis (área central). Ele possui 2.764 sepulturas definitivas; das quais 13.173 restos mortais já foram exumados. O Cemitério Padre Anchieta - no jardim Ideal, zona leste -, com 5.896 sepulturas perpétuas também está quase que totalmente cheio.
O maior cemitário da Acesf, em termos de espaço físico, é o Jardim da Saudade, com mais de 120 mil metros quadrados. Em funcionamento desde 1984, ele fica no jardim Planalto (nos Cinco Conjuntos, zona norte). Nele, já foram sepultados 14.596 corpos de seguidores das mais diferentes religiões presentes na Cidade.
Inaugurado pela Sociedade Beneficente Muçulmana do Norte do Paraná em 1988, o Cemitério Islâmico - no bairro do Aeroporto - é o menor da Cidade e conta com apenas 21 corpos sepultados. O Parque das Oliveiras - também no Aeroporto - foi construído em 1980 e possui 24 mil metros quadrados. Igualmente ao Islâmico, o Parque das Oliveiras não permite a construção de túmulos sobre as carneiras. O cemitério da Sociedade Evangélica já vendeu em definitivo cerca de 2 mil terrenos para três gavetas cada um; e dispõe de aproximadamente outros 1.700 espaços.
‘‘O cemitério é um local especial, sagrado, porque acolhe para descanso os corpos dos fiéis de Cristo, que é um templo do Espírito Santo’’, ressalta o arcebispo de Londrina dom Albano Cavallin. ‘‘Por isto, erguemos os túmulos em homenagem e respeito à pessoa humana que faleceu, e que era portadora de uma alma que vai ressuscitar para uma vida nova, a vida eterna ao lado de Deus Nosso Senhor.’’
Segundo ele, é também por isto que a Igreja Católica não recomenda a cremação dos corpos. ‘‘Até aceitamos, em casos especiais, a utilização do crematório por questões de higiene e saúde pública. Mas não a aconselhamos, porque o corpo e a alma de um cristão fazem parte de um todo’’, acrescenta o arcebispo. Ele critica ainda o que chama de ‘banalização da morte’, através da qual o Brasil estaria fazendo de seus mortos um sub-produto muito descartável, ultimamente. ‘‘É necessário mais respeito, mais seriedade na despedida e no tratamento com nossos mortos, com a memória dos filhos de Deus.’’

O menorIslâmico: apenas 21 corpos sepultados, todos voltados para MecaO reverendo budista Ryushin Toyohashi concorda que está faltando mais respeito em relação aos mortos. ‘‘No Japão, apesar da utilização dos crematórios por questão da falta de espaço e de saúde, além das diferenças culturais, o funeral é revestido de muito mais seriedade e reflexão. Aqui no Brasil, muita gente vai aos funerais de shorts, de camiseta e chinelos; ficam lá nos cantos, de braços cruzados, conversando assuntos de menor importância, sem prestar atenção nas orações e no momento de dor dos familiares’’, afirma o líder espiritual budista.
O sheik islâmico Ahmad Saleh Mahairi diz que o fato de os muçulmanos possuírem um cemitério exclusivo para seus mortos é explicado com base em questões culturais e religiosas. ‘‘Em todos os países onde os muçulmanos estão presentes, é assim. Os seguidores de Allah têm o maior respeito pelo cemitério, pelo espaço de seus antepassados. Afinal, terminada a vida terrena, inicia-se no cemitério a chamada vida de transição. Além do significado religioso - de as almas dos muçulmanos se sentirem felizes em estar juntas num único local -, temos em nossos cemitérios um espaço especial de preservação de nossa cultura, para repassarmos às futuras gerações’’, ressalta Mahairi.
Apesar de ser uma doutrina basicamente cristã, a filosofia-religiosa Espírita Kardecista não dá aos cemitérios o mesmo valor e significado que os católicos. Os praticantes espíritas sepultam seus mortos em todos os cemitérios, indistintamente. ‘‘Nossa religião é muita aberta. Dela participam pessoas de várias camadas sociais e, inclusive, fiéis de outras doutrinas. Por isto, quando morrem, são enterrados onde a família deles preferir’’, explica o médium Pedro Candido Romero.
De acordo com ele, o local do sepultamento não tem muita importância, apesar do respeito que os espíritas têm pela escolha dos familiares dos mortos e pelos cemitérios construídos segundo a proposta de outras religiões. ‘‘O corpo, a matéria, acaba, some rapidamente após a morte da pessoa. O que importa, na verdade, é o espírito que não morre jamais e parte para outros estágios superiores’’, comenta Pedro Romero. ‘‘Por isto, tanto faz se o corpo do morto vai para um luxuoso túmulo ou para debaixo de uma árvore. Eu, prefiro que os mortos descansem em paz em um local tranquilo, sem pompas, enquanto seus espíritos se preparam para a reencarnação futura.’’
(Osmani Costa)

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