Cemitérios de Londrina se deterioram com furtos
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quinta-feira, 24 de maio de 2018
Pedro Marconi<br>Reportagem Local 

"Furtaram do túmulo dos meus pais as placas com os nomes deles. Para quem passa por isso o sentimento é de revolta". A fala é do servidor público aposentado Meriko Macsuoka Bento. Ele se refere ao cemitério João XXIII, no jardim Higienópolis, região central de Londrina. Porém esta situação não é restrita a esse local. Têm sido cada vez mais recorrentes as reclamações sobre os furtos de objetos de bronze, prata e ferro dos cemitérios da cidade. A FOLHA percorreu quatro e o que se viu foram estruturas violadas e destruição deixada por criminosos.
Dos cemitérios visitados, o João XXIII apresenta o maior nível de degradação. Logo na entrada, poucos são os túmulos que não tiveram placas, imagens, crucifixos e puxadores furtados. Somente em um corredor, dos 68 jazigos existentes, 51 tiveram alguma peça levada. Só restaram os túmulos que são totalmente de concreto. Em jazigos que guardam o corpo de diversas pessoas da mesma família, somente a marca da cola restou. Alguns túmulos ainda tiveram os mármores derrubados e quebrados. São raros os que ainda contam com a foto da pessoa falecida.
A reportagem ficou no local por cerca de 20 minutos. Durante o período, nenhum funcionário da Acesf (Administração dos Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina) foi visto. A sala de servidores estava trancada. O cemitério é cercado de grades de arame, em que vários pontos estão abertos, não oferecendo qualquer tipo de dificuldade para quem quiser entrar ou sair durante a noite e madrugada. "O cemitério está abandonado. Pagamos o 'IPTúmulo', mas não existe cuidado com as pessoas que estão aqui", considerou Meriko Bento, se referindo à taxa de administração dos cemitérios. Jazigos também estão pichados.

ABERTOS
Em outubro de 2017, a autarquia, junto com a Guarda Municipal, instalou uma câmera para fazer a segurança do cemitério São Pedro, no centro, e coibir furtos. Sete meses depois, as ações de bandidos continuam. Além de apresentar os mesmos problemas do João XXIII, no cemitério do centro túmulos estão sem a tampa, deixando visível restos mortais e caixas com ossos. Segundo Maria das Graças, que trabalha no cemitério limpando jazigos há mais de uma década, é comum este tipo de ocorrência. "De tarde não vemos ninguém. Com toda a certeza vem a noite e com tempo, porque é difícil arrancar essas peças. Todo dia tem gente reclamando que teve algo do túmulo furtado", relatou.
O funcionário público aposentado Gumercindo Macantonio teve as sepultaras do pai e do avô violadas. Em uma foram furtados o crucifixo e o puxador de bronze. Na outra a porta. "Tive que pagar para um pedreiro fechar com concreto porque os restos mortais do meu avô estava exposto. Fiz boletim de ocorrência e levei na Acesf. Falaram que não tem guarda para ficar cuidando quando fecha o cemitério. Ao lado do túmulo do meu pai, por exemplo, de sete pessoas sepultadas, levaram a placa com a identificação de cinco. É uma barbaridade."
DEPREDAÇÃO
No cemitério Padre Anchieta, no jardim Ideal, zona leste, o estado de depredação gerado pela ação de criminosos se repete. Centenas de túmulos não contam mais com a placa de identificação ou qualquer outro material de bronze ou prata. "Viemos no Dia das Mães e encontramos o túmulo sem nada. Todos os objetos foram levados. Somente no jazigo da nossa família é a terceira vez que isso acontece", relatou a dona de casa Shirlei Moraes Paz. "Fiquei chocada com a falta de respeito. A pessoa acha que vai ter segurança no cemitério, mas nem isso temos mais", lamentou a estudante Fabiane Paz Mazeu.
EQUIPAMENTOS DE TRABALHO
Dos cemitérios visitados pela FOLHA, o Jardim da Saudade, na zona norte, que é o maior de Londrina, foi o que apresentou a situação mais tranquila em comparação aos outros. Mãe e filha, a merendeira aposentada Shirlei Maran Pereira e a atendente Eliane Maran Pereira foram ao local conferir se haviam entrado para a estatística das famílias com sepulturas furtadas. "Vimos que estava tendo muitos casos de furtos e resolvemos visitar. Na sepultura dos nosso familiares, ainda bem, está tudo certo. Que continue assim", esperam.
Já os funcionários que trabalham no Jardim da Saudade não tiveram a mesma sorte. Recentemente eles tiveram a sala onde guardam materiais furtada. Um funcionário, que pediu para não ser identificado, disse que são poucas, mas existem reclamações de furtos de objetos dos túmulos. "Arrombaram a sala administrativa e furtaram pacotes de café e um carrinho que usamos na limpeza. Ficou o prejuízo, que acaba indo para o boldo do morador da cidade", constatou.
'Estamos tomando providências', garante superintendente
O novo superintendente da Acesf, Leonilso Jaqueta, disse estar ciente quanto os problemas dos cemitérios de Londrina, especialmente os localizados na região central e leste. "Infelizmente o número de furtos está muito grande. Dá dó de ir no Padre Anchieta, São Pedro e João XXIII. Esse é o principal desafio da Acesf neste momento", reconheceu. Ele ainda informou que não existe um número que quantifique os casos de furtos. "A maioria dos familiares acaba não fazendo o Boletim de Ocorrência, por ser um furto pequeno. O que sabemos é daqueles que vêm aqui, que são poucos, e vendo", completou.
Jaqueta garantiu que está em busca de soluções. Para ele, os principais problemas que contribuem para gerar este clima de insegurança são os muros baixos, a falta de iluminação e a ausência de câmeras de segurança. "Já estamos tomando algumas providências e em breve poderemos dar uma resposta positiva. Primeiro é a questão da iluminação. Os cemitérios estão muito escuros. Outro agravante é que os muros estão baixos, o que deixa fácil para pular. Precisamos fazer tudo isso com urgência", elencou.
Ele garantiu que já se reuniu com representantes da Guarda Municipal e que em breve irá procurar a direção da Sercomtel Iluminação. "Vamos marcar uma reunião para tentar uma parceria na questão da iluminação", idealizou. Questionado sobre ações concretas que foram tomadas, o superintendente da Acesf exemplificou o caso do cemitério São Pedro. "Vamos pedir a poda das árvores para 'clarear' e estamos fazendo levantamento de custos para aumentar a altura do muro. Começando o serviço neste local, vamos levar as intervenções para o Padre Anchieta e João XXIII."
Sobre a falta de funcionários no cemitério João XXIII, percebido durante visita da reportagem, Jaqueta assegurou que os cemitérios contam com plantonistas enquanto estão abertos. Os servidores variam de um a dois, dependendo do espaço. Os cemitérios da zona rural não dispõem destes funcionários. Quando existe demanda, servidores são deslocados.
GUARDA MUNICIPAL
Segundo o secretário de Defesa Social, Evaristo Kuceki, a câmera de segurança instalada para monitorar o cemitério São Pedro está funcionando. Ele também reclamou da falta de iluminação neste e nos demais cemitérios. "Não temos condição de dar segurança sem iluminação, pois os furtos acontecem durante o período noturno. Fizemos trabalho com pessoas que moram próximas a estes locais para nos ligarem quando observarem algo de estranho. Muitas vezes vamos, mas não encontramos o assaltante pela falta de luz", explicou.
O responsável pela Guarda Municipal ressaltou que as rondas nos cemitérios de Londrina são frequentes. Ele apontou a existência de receptadores dos objetos furtados. "Recentemente a Polícia Civil nos informou que deu flagrante em um ferro-velho da cidade que recebia estes materiais. Mantemos um diálogo com a polícia para identificar estes receptadores."
ILUMINAÇÃO
Por meio da assessoria de imprensa, a Sercomtel Iluminação comunicou que a iluminação interna dos cemitério não é de sua responsabilidade, e sim aqueles que ficam no entorno. Também que ainda não foi procurada pela Acesf e que se ela optar pelo serviço da empresa, precisará pagar a partir da confecção de um contrato.
Acesf espera arrecadar R$ 2 milhões com taxa
Começaram a ser enviados e entregues nesta segunda quinzena de maio os boletos da taxa de administração dos cemitérios de 2018. Os concessionários da Acesf terão que pagar a taxa anual até o dia 7 de junho. Ao todo, são 30.509 boletos. O valor do documento varia de acordo com o cemitério e sua localização. O máximo cobrado equivale a R$ 151,50. A Acesf espera arrecadar cerca de R$ 2 milhões. Londrina tem 13 cemitérios públicos.
Leonilso Jaqueta, superintendente da Acesf, ressaltou que o dinheiro é necessário para promover melhorias nos cemitérios municipais. "Vamos usar esta taxa e investir nos cemitérios para melhorar não somente a questão da segurança, para embelezar um pouco mais e dar mais de qualidade para os frequentadores", defendeu. Entre as medidas que serão colocadas em prática com o montante arrecadado estão a construção de muro no entorno do cemitério João XXIII e a instalação de câmera de videomonitoramento no Jardim da Saudade.
Em 2017, a taxa de administração teve 18% de inadimplência. O que foi recebido, aproximadamente R$ 1,5 milhão, foi gasto em obras de reparo e manutenção do cemitério Jardim da Saudade, com o serviço de drenagem, instalação de poços de monitoramento de lençóis freáticos, pavimentação da via principal e reforma da área do gavetário conjugado, entre outras intervenções.


