Sid Sauer‘Sucupira’O Cemitério atual de Altamira do Paraná; terreno inadequado dificulta escavação e deixa caixões e mesmo ossos à mostra ALTAMIRA DO PARANÁ - Em dezembro do ano passado, quando o então prefeito Fernando Barbosa Diniz (PTB) inaugurou, com direito a placa e tudo mais, o novo Cemitério Municipal de Altamira do Paraná (140 quilômetros ao sul de Campo Mourão), parecia ter colocado fim a uma novela que se arrastava por mais de quatro anos: a desativação do atual cemitério, que é recusado pela grande maioria da população. A inauguração, no entanto, acabou se transformando apenas em mais um capítulo da longa e confusa história.
Hoje, quatro meses depois de ser ‘‘inaugurado sem defunto’’, o novo cemitério ainda não recebeu nenhum enterro. Não que o novo prefeito, Luiz Fernando Vecchi (PDT), um velho inimigo político do antecessor, esteja passando pelo drama do imortal prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu, da novela ‘‘O bem amado’’, de Dias Gomes. Mortes na cidade nesse período até que aconteceram, mas Vecchi não concorda com a obra do ‘‘rival’’ e já tomou posse prometendo achar outro terreno para o cemitério.
O novo, mas já abandonado ‘‘campo santo’’, fica bem na entrada da cidade, às margens da PR-364. O terreno, como quase todos da cidade, tem uma acentuada declividade. Os vândalos trataram de destruir o cruzeiro e dar ‘‘sumiço’’ à placa de inauguração.
A prefeitura tratou de apagar o letreiro sobre o portal. Restaram o muro de pedra, o portão metálico e muito mato. De cemitério, restou só a cara. Os moradores do Conjunto Habitacional Ivo Pegorer, ao lado, comemoraram. Eles nunca gostaram da idéia de ganhar um vizinho tão fúnebre.
Ossos à mostra A dona-de-casa Mariza Lúcia Oliveira Diniz (nenhum parentesco com o ex-prefeito) chegou a fazer um abaixo-assinado em protesto contra a construção do cemitério. Nem é preciso dizer que ela mora no conjunto ao lado. O bairro tem 45 casas, mas Mariza conseguiu 47 assinaturas. ‘‘O pessoal do sítio aqui perto também assinou’’, explica. O marido dela, Irame Rodrigues Diniz, dá total apoio à mulher. ‘‘Deus nos livre ter um cemitério aqui’’, ressalta.
Nem sempre, porém, Altamira ficou sem cemitério. O dilema só começou há menos de cinco anos, quando o prefeito Luiz Fernando Vecchi, em seu primeiro mandato, resolveu construir um hospital municipal. Graças à acidentadíssima topografia da cidade e do então cemitério estar muito próximo ao centro, ele tentou ‘‘matar dois coelhos com uma paulada só’’. Mudou o ‘‘campo santo’’ para outro lugar e construiu o hospital onde era o ‘‘terreno dos mortos’’. Deu ‘‘quase’’ tudo certo.
O problema é que o cemitério foi transferido para um local pouco apropriado. O terreno tem uma grande declividade e, para piorar, o solo é de pedra e dificulta a escavação de covas. Os mortos não reclamaram, mas uma simples chuva passou a ser sinal de catástrofe. Ela pode levar embora a terra sobre a sepultura e deixar pedaços de caixões à mostra. Isso quando ossos não ficam à vista. Além disso, não foi feita nenhuma obra de infra-estrutura. O portão e a cerca lembram o cercado de um pasto.
Caravana Diante de tudo isso, o atual cemitério de Altamira do Paraná divide as opiniões da população. Pelo menos metade dos moradores prefere dizer que não há cemitério por perto. A outra metade, faz ‘‘cara feia’’ ao citá-lo.
Certo mesmo é o fato da maioria da população preferir levar seus parentes mortos para ser enterrado em Campina da Lagoa, a 40 quilômetros de distância. São cerca de cinco enterros por mês. O suficiente para surgir na cidade o comentário que o município vizinho não quer mais os defuntos de Altamira. No Dia de Finados, por exemplo, uma verdadeira caravana ruma de Altamira a Campina da Lagoa.
‘‘A própria prefeitura tem que liberar ônibus para Campina no Dia de Finados e em dia de enterro’’, conta a professora Lúcia Maria da Rosa. ‘‘Já aconteceu de estudante ficar sem transporte escolar porque o ônibus do município estava num sepultamento em Campina’’, recorda. Nem por isso, porém, Lúcia é a favor da ativação do cemitério construído no final do ano passado. Pudera. Ela é uma das 45 famílias que moram no Conjunto Ivo Pegorer e não querem ficar vendo túmulo pela janela.
Lúcia tem apenas um avô enterrado no atual cemitério. Ele foi, originalmente, sepultado onde agora está o hospital municipal. Com a transferência, os restos mortais foram parar no ‘‘cemitério da pirambeira’’. ‘‘Ele pediu que fosse enterrado em Altamira’’, recorda Lúcia. Só por isso a família concordou com o túmulo no local. Uma avó e uma tia da professora, por exemplo, foram levadas para Campina da Lagoa. ‘‘É bem mais longe, mas o cemitério é decente.’

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