Cemitério vira novela em Altamira
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de maio de 1997
Sid Sauer Correspondente 
Sid SauerSucupiraO Cemitério atual de Altamira do Paraná; terreno inadequado dificulta escavação e deixa caixões e mesmo ossos à mostra ALTAMIRA DO PARANÁ - Em dezembro do ano passado, quando o então prefeito Fernando Barbosa Diniz (PTB) inaugurou, com direito a placa e tudo mais, o novo Cemitério Municipal de Altamira do Paraná (140 quilômetros ao sul de Campo Mourão), parecia ter colocado fim a uma novela que se arrastava por mais de quatro anos: a desativação do atual cemitério, que é recusado pela grande maioria da população. A inauguração, no entanto, acabou se transformando apenas em mais um capítulo da longa e confusa história.
Hoje, quatro meses depois de ser inaugurado sem defunto, o novo cemitério ainda não recebeu nenhum enterro. Não que o novo prefeito, Luiz Fernando Vecchi (PDT), um velho inimigo político do antecessor, esteja passando pelo drama do imortal prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu, da novela O bem amado, de Dias Gomes. Mortes na cidade nesse período até que aconteceram, mas Vecchi não concorda com a obra do rival e já tomou posse prometendo achar outro terreno para o cemitério.
O novo, mas já abandonado campo santo, fica bem na entrada da cidade, às margens da PR-364. O terreno, como quase todos da cidade, tem uma acentuada declividade. Os vândalos trataram de destruir o cruzeiro e dar sumiço à placa de inauguração.
A prefeitura tratou de apagar o letreiro sobre o portal. Restaram o muro de pedra, o portão metálico e muito mato. De cemitério, restou só a cara. Os moradores do Conjunto Habitacional Ivo Pegorer, ao lado, comemoraram. Eles nunca gostaram da idéia de ganhar um vizinho tão fúnebre.
Ossos à mostra A dona-de-casa Mariza Lúcia Oliveira Diniz (nenhum parentesco com o ex-prefeito) chegou a fazer um abaixo-assinado em protesto contra a construção do cemitério. Nem é preciso dizer que ela mora no conjunto ao lado. O bairro tem 45 casas, mas Mariza conseguiu 47 assinaturas. O pessoal do sítio aqui perto também assinou, explica. O marido dela, Irame Rodrigues Diniz, dá total apoio à mulher. Deus nos livre ter um cemitério aqui, ressalta.
Nem sempre, porém, Altamira ficou sem cemitério. O dilema só começou há menos de cinco anos, quando o prefeito Luiz Fernando Vecchi, em seu primeiro mandato, resolveu construir um hospital municipal. Graças à acidentadíssima topografia da cidade e do então cemitério estar muito próximo ao centro, ele tentou matar dois coelhos com uma paulada só. Mudou o campo santo para outro lugar e construiu o hospital onde era o terreno dos mortos. Deu quase tudo certo.
O problema é que o cemitério foi transferido para um local pouco apropriado. O terreno tem uma grande declividade e, para piorar, o solo é de pedra e dificulta a escavação de covas. Os mortos não reclamaram, mas uma simples chuva passou a ser sinal de catástrofe. Ela pode levar embora a terra sobre a sepultura e deixar pedaços de caixões à mostra. Isso quando ossos não ficam à vista. Além disso, não foi feita nenhuma obra de infra-estrutura. O portão e a cerca lembram o cercado de um pasto.
Caravana Diante de tudo isso, o atual cemitério de Altamira do Paraná divide as opiniões da população. Pelo menos metade dos moradores prefere dizer que não há cemitério por perto. A outra metade, faz cara feia ao citá-lo.
Certo mesmo é o fato da maioria da população preferir levar seus parentes mortos para ser enterrado em Campina da Lagoa, a 40 quilômetros de distância. São cerca de cinco enterros por mês. O suficiente para surgir na cidade o comentário que o município vizinho não quer mais os defuntos de Altamira. No Dia de Finados, por exemplo, uma verdadeira caravana ruma de Altamira a Campina da Lagoa.
A própria prefeitura tem que liberar ônibus para Campina no Dia de Finados e em dia de enterro, conta a professora Lúcia Maria da Rosa. Já aconteceu de estudante ficar sem transporte escolar porque o ônibus do município estava num sepultamento em Campina, recorda. Nem por isso, porém, Lúcia é a favor da ativação do cemitério construído no final do ano passado. Pudera. Ela é uma das 45 famílias que moram no Conjunto Ivo Pegorer e não querem ficar vendo túmulo pela janela.
Lúcia tem apenas um avô enterrado no atual cemitério. Ele foi, originalmente, sepultado onde agora está o hospital municipal. Com a transferência, os restos mortais foram parar no cemitério da pirambeira. Ele pediu que fosse enterrado em Altamira, recorda Lúcia. Só por isso a família concordou com o túmulo no local. Uma avó e uma tia da professora, por exemplo, foram levadas para Campina da Lagoa. É bem mais longe, mas o cemitério é decente.


