Guardiã do que pode ser uma importante descoberta arqueológica paranaense, a crença no poder dos mantras dos pajés sedimentada por lendas e causos que batucam nos ouvidos dos moradores da região de Mauá da Serra (54 quilômetros ao Sul de Apucarana) ajudou a preservar o que os pesquisadores estudam ser um cemitério indígena na Serra do Cadeado.
Na terça-feira passada foi realizada a primeira expedição de uma equipe de pesquisa ao local, promovida pela Folha, que apurou a informação da existência do sítio arqueológico. Se confirmada a suspeita, este será o primeiro conjunto de túmulos de pedras até então descoberto na região. Na Aldeia do Barão, em Antonina, perto do Rio Tibagi, já foram encontradas algumas sepulturas de terra, mas em menor quantidade.
Numa colina que olha para um vale, tendo como personagens o Morro da Pedra Branca e o Perau Vermelho, se erguem o que poderiam ser seis túmulos coletivos e individuais supostamente caingangues. Ao contrário da tradição da nação, que cobria a sepultura com um monte de terra, com altura até de uma casa, as pirâmides de pedras escondem enigmas que deixaram entusiamados antropólogos e arqueólogos que acompanharam a reportagem.
Se for realmente um cemitério de índios, os pesquisadores podem descer da colina em direção ao passado, com respostas que devem ser apuradas em um trabalho de pelo menos quatro anos.
O antropólogo e historiador da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Lúcio Tadeu Mota, não participou da visita, mas traçou três hipóteses para a descoberta. Uma delas atravessa pela trilha escarpada de supostos túmulos indígenas para encontrar também um possível local de celebração dos pajés guaranis.
Relatos de jesuítas espanhóis do século 16 dizem que era difícil conquistar os índios por causa da influência exercida pelos pajés, que faziam suas invocações nesses lugares escondidos na mata. A passagem dos jesuítas pela região poderia despertar a cobiça de saqueadores que, além de artefatos indígenas que podem estar ''dormindo'' com os mortos do possível cemitério, queiram correr atrás das lendas sobre tesouros enterrados dos religiosos.
Uma terceira hipótese é que seja um cemitério de brancos. Na década de 30 e 40, a região de Ortigueira (113 quilômetros ao Sul de Apucarana) era um refúgio de bandidos, que poderiam ter sido enterrados no local.
Para a antropóloga e professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Kimiye Tommasino, a chance de ser um cemitério indígena é grande. Doutora em antropologia pela Universidade de São Paulo (USP), Kimiye acompanhou a equipe de reportagem. A expedição teve a participação ainda do pesquisador do Laboratório de Arqueologia da UEM, Eurides Roque Oliveira, que integra, com Kimiye, o Programa Interdisciplinar Estudos de Populações, da universidade maringaense.
Além de um contato londrinense, que nos guiou pela serra um passeio por uma estrada de terra e uma paisagem belíssima, que já valeria a pena conhecer contamos com a ajuda do dono da propriedade rural de 33 alqueires, onde estão os supostos túmulos e as lendas dos pajés e suas rezas, que impedem que os intrusos consigam desenterrar os mortos.
No caminho pelo pasto fomos acompanhados pelas histórias do rapaz, contadas com ar respeitoso. ''O antigo dono da propriedade disse que o pai dele conheceu os índios que estão enterrados. Eram sepultados nesse cemitério os caciques e filhos de caciques'', conta o agropecuarista de 30 anos, que pensa em vender a propriedade. Os pesquisadores orientaram o proprietário a preservar o lugar. Se for confirmada a existência do cemitério, o local poderia ser explorado com visitas monitoradas.
''Um rapaz que tinha antes aqui, veio e cavou um desses túmulos, achando uma ponta de flecha, com que fez um pingente'', acrescenta o agropecuarista. A narração abre caminho no pasto até chegarmos ao local do suposto cemitério. O túmulo de onde o rapaz tirou um possível pedaço da história para levar no pescoço é um dos exibidos na colina.
Outros pedaços dos fragmentos que podem compor a ocupação humana na América do Sul, que é de mais de 10 mil anos, e da migração caingangue e guarani para a região do Paraná, em torno de três mil anos, vindos do Brasil Central, poderiam estar sob os montes de pedras lascadas, milimetricamente empilhadas, atingindo a altura de um homem. As pirâmides sepultariam material lítico, como ponta de flechas, machados, cestaria, que ajudariam a resgatar os costumes e a cultura dos índios.
O vale de hipóteses que se estendeu sobre os olhos dos pesquisadores ao conhecerem os três possíveis túmulos grandes e outros três menores sobre a colina na direção leste faz com que acreditem na existência de mais um cemitério na direção oposta.
A professora Kimiye explica que existe uma divisão simbólica dos caingangues entre kamés e kairus. ''Os homens de um grupo somente se casam com as mulheres do outro. Os rezadores rezam sempre para os mortos do outro grupo. As dançarinas também somente dançam para os mortos do outro grupo'', afirma a professora, lembrando que os cemitérios kamés e kairus são separados.
Além dos seis possíveis túmulos, algumas pedras, trazidas provalmente pelos índios de outros lugares, estão espalhadas pelo morro, o que faz crer que existiam mais túmulos, que podem ter sido destruídos pelo tempo ou pela ação de vândalos.
Para comprovar as teorias que começam a sair das supostas sepulturas é preciso realizar uma escavação de pelo menos um túmulo. A disposição das pirâmides pela colina e o tamanho despertam a hipótese de que obedecem a uma possível hierarquia. Os túmulos grandes podem ser coletivos, de famílias ou de guerreiros mortos em combate ou em epidemias. Os menores não são menos importantes, podendo ser de caciques mortos na guerra ou por doenças.
A tradição caingangue diz que essas sepulturas recebem apenas homens. Corpos do sexo feminino nos túmulos seriam de mulheres de líderes. Ao irem para o combate tinham o direito às mesmas honras.
Para resolverem os mistérios do cemitério da Serra, inclusive identificando a que período pertence, relatando ainda a existência do sítio arqueológico ao Instituto Histórico Brasileiro, os pesquisadores devem apresentar projetos ao governo federal. ''Se for confirmado que se trata de um cemitério caingangue, temos uma descoberta importantíssima'', avalia Kimiye.
Os pesquisadores devem voltar ao suposto cemitério para um levantamento mais aprofundado. Oliveira e Kimiye acreditam que podem ser encontrados vestígios de uma aldeia, incluindo as casas subterrâneas dos índios, com oito metros de profundidade e 15 metros de diâmetro.
O suposto cemitério guardaria a tradição de uma cultura em que os vivos devem fazer luto completo pelos mortos, que ficam vagando. Quando estão na mata, os parentes evitam olhar para trás ao ouvirem um assobio, com medo do defunto ter voltado para buscá-lo. Lendas indígenas, como essa pairam sobre a suposta descoberta, ajudando a garantir a preservação do possível sítio arqueológico.

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