Cegueira atinge 64% das mulheres no mundo
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Dois terços dos cegos do mundo são mulheres: a constatação é da Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira que, em parceria com a Organização Mundial da Saúde, criou um programa com objetivo eliminar a cegueira por causas evitáveis do mundo até o ano de 2020.
Pesquisas realizadas pelos dois órgãos apontam que o sexo feminino corre mais risco de desenvolver a cegueira em qualquer idade e em qualquer parte do mundo. ''Esses altos índices em mulheres podem ser explicados por três fatores: particularidades culturais, sociais e biológicas; maior expectativa de vida; e baixo acesso aos serviços de saúde'', diz a oftalmologista Denise Fornazari, integrante da comissão brasileira do programa Vision 2020, que luta pela erradicação da cegueira evitável.
Entre os fatores sociais e culturais que colocam os olhos das mulheres em maior risco está o fato de que elas geralmente são responsáveis em cuidar da saúde da família e por isso ficam mais expostas a doenças infecciosas. De acordo com Denise, em alguns lugares, as mulheres não têm poder de decisão sobre medidas e gastos com a própria saúde: ''Em geral, as necessidades femininas de cuidado ocular nem sempre são consideradas tão urgentes ou importantes quanto às dos homens''.
Biologicamente também há indícios de que as mulheres têm mais chances de desenvolver doenças oculares, principalmente por questões hormonais. ''No caso da catarata, principal responsável pela cegueira evitável em países em desenvolvimento, elas apresentam uma incidência levemente maior.''
Para Denise, a saída é a adoção de programas facilitadores de acesso a serviços de saúde, a conscientização dos parentes sobre as necessidades das mulheres da família e o estímulo para que se tornem tomadoras de decisão quando a questão é a própria saúde.
Descuido
Despreocupada com a própria saúde, a funcionária pública Nilza Rosa da Silva, 52 anos, perdeu a visão há nove anos em decorrência da diabetes. Na época, ela pensou que precisava de óculos, quando foi informada pelo oftalmologista que inevitavelmente deixaria de enxergar.
''Fiz aplicações de laser, mas acabei perdendo um olho e tive de me afastar do serviço em março de 2000. Em novembro do mesmo ano perdi toda a visão'', rememora Nilza, que hoje é aposentada e vive com a mãe e o irmão, no Jardim Leonor (Zona Oeste).
''Por um tempo ainda morei sozinha, mas, de repente me vi sem visão e precisei da ajuda da família. Hoje sou dependente'', lamenta Nilza, que perdeu completamente o sentido de repente, enquanto ia à missa. ''Me ajudaram a atravessar a rua depois que desci do ônibus e a tomar a comunhão até minha mãe ir me buscar. Chorei a missa inteirinha'', recorda.
Ela conta que deixou de tomar insulina porque se sentia ''inchada, sem vontade de levantar da cama'' e que hoje sofre de pressão alta e dores na coluna. ''Único problema é quando estou com muita fome, se não como sinto fraqueza, mas não passo mal por falta de insulina'', diz Nilza, que se autointitula teimosa.
Ela trabalhava como assistente administrativa numa biblioteca e hoje está recuperando a alegria de viver, aprendendo a usar o computador no Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos.
''Como gostava de fazer crochê, logo que fiquei cega comecei a fazer tapetes de barbante, que cheguei a comercializar. Hoje não consigo mais, apenas ajudo minha mãe, que é doente, no cuidado da casa. Mas entrego na mão de Deus e sigo em frente'', conclui.


