Cego dribla obstáculos nas ruas e calçadas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de setembro de 2005
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
Três vezes por semana, Lauro Antonio Brandão, 48 anos, vai de ônibus da casa dele, no Jardim Santos Dumont (Zona Leste), ao Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos. Ele é deficiente visual desde o nascimento. Quando não está acompanhado do guia, a caminhada até o ponto de ônibus pode tornar-se um martírio. As dificuldades são causadas por desrespeito e desleixo, principalmente na manutenção de calçadas.
Com as áreas destinadas aos pedestres praticamente intransitáveis, o cego é obrigado a andar pela rua, o que representa risco de atropelamento e choque com os mais diferentes tipos de obstáculo. Segunda-feira, uma trombada com uma caçamba deixou Brandão ferido. Mesmo com a bengala, ele não conseguiu detectá-la e machucou o nariz. ''Na hora senti o sangue escorrendo e pensei que tivesse quebrado o nariz. Desisti de ir para o instituto na hora. Se isso ocorreu perto da minha casa, por onde sempre passo, imagine em outros lugares da cidade'', declarou.
A dificuldade de Brandão pôde ser constatada pela reportagem. No trajeto entre a casa dele, na Rua Gastão Madeira, e o ponto de ônibus, na Avenida Comandante João Ribeiro de Barros, os obstáculos são inúmeros: calçadas escorregadias ou totalmente intransitáveis e carros estacionados irregularmente bloqueando a passagem de pedestres.
A alternativa é andar pela rua, onde ele bateu na caçamba. ''Teria que existir um tipo de sinalização para cegos em volta (da caçamba)'', cobrou. Ele apontou orelhões e lixeiras como outros tipos de obstáculos que representam risco para os cegos.
Uma forma de sinalização, como explicou a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Martinha Clarete Dutra, são as faixas de isolamento. Usadas para preservar o espaço de obras, também podem ser colocadas ao redor das caçambas. ''É uma barbaridade que este tipo de coisa ainda aconteça. Tem obstáculos que a bengala não rastreia. Por isso, tem que ser bem sinalizado'', salientou. Ela disse ainda que Brandão pode acionar na Justiça tanto os proprietários, responsáveis pela manutenção das calçadas, quanto a prefeitura, que fiscaliza o cumprimento do Código de Obras.
As lixeiras no meio das calçadas e os rebaixamentos irregulares também são apontados por Martinha como obstáculos aos deficientes visuais. ''Se a calçada está livre, não sou obrigado a me arriscar na rua'', resumiu Lauro Brandão.


