Walter Ogama
Havia saído de casa cedo, lá pelas sete da manhã, não que tivesse algum compromisso urgente naquela terça-feira depois do feriado de 15 de Novembro. Foi por pura necessidade de se soltar de uma amarra que o prendia há cerca de sete meses, desde que a mulher faleceu e a filha do meio, que sempre foi mais amiga, o levou para sua casa.
Naquela ocasião aceitou o convite, feito pela filha quase em tom de ordem, porque não tinha outra alternativa. Viúvo e sobrevivendo com uma aposentadoria que não permitia conforto, lá foi o velho, constrangido, deixando vazia a moradia de aluguel onde havia repartido os últimos momentos de compreensão, afeto, briguinhas e amor com a esposa.
A mudança se limitou a alguns caixotes com pertences pessoais e uma mala. Uma mala pequena, a mesma que ele usou na última viagem com a mulher, para uma visita de cinco dias à chácara de uma irmã. E foi arrumando a mala que ele lembrou:
– Meu Deus! Não pude fazer nada por ela. Não consegui cavar um bom futuro pra meus filhos. Só trabalhei, não ganhei nada, não deixei nada pra eles.
Os primeiros dias e as primeiras semanas foram de compensação, conforme avaliou meses depois. O velho foi recebido com euforia pelos netos. A filha, muito apegada a ele, se desdobrou para dar atenção repartindo o seu tempo entre o emprego de vendedora em uma loja e os afazeres domésticos. Mereceu paparicos até do genro, de quem o velho tinha um conceito:
– Ele não é má pessoa, dá todo o conforto para a minha filha e os meus netos, mas me trata com carranca.
Foi um período curto o da euforia das crianças e o dos paparicos do genro. Só a filha manteve a atenção. Atenção que, na avaliação do velho, era extraída de um afeto muito grande dela por ele. Não raras vezes ele ouvira o genro bronqueando com a filha, culpando-a por ter trazido o velho para a casa da família.
– Ouvi ele dizendo que eu atrapalho a vida familiar. Que eu sou um estranho e tiro a liberdade do casal. Ele tem razão. Minha filha e meu genro ainda são jovens. Eles não merecem carregar um fardo como eu.
Foi com esse pensamento que o velho deixou a casa naquela manhã de terça-feira. Havia decidido procurar uma pensão ou um quarto de hotel barato. A aposentadoria seria suficiente. Com os seus 67 anos e a barriga avisando que cinto não servia mais para segurar as calças, o velho deixou o bairro da zona oeste e saiu a pé. Não tinha hora para voltar, havia avisado para um dos netos. Encontrou conhecidos, cumprimentou uma vizinha e com a vagarosidade de quem está muito abatido por causa de uma angústia muito grande, por culpa da solidão, ele foi arrastando os pés pelo cimento das calçadas. Isso quando havia calçada disponível.
No trajeto teve que desviar de material de construção obstruindo passagem de pedestre, mato na frente de terreno baldio, calçamento quebrado e até carros. Como ocorreu diante de uma empresa de venda de carros usados na Avenida JK. Foi obrigado a caminhar um trecho por uma das pistas da avenida porque algum motorista havia decidido que calçada também é lugar de carro. Ele não reclamou, estava sem ânimo. Apenas pensou, como depois revelou:
– Numa hora dessas é que devia aparecer um guarda de trânsito.
Ele, que mais por precaução do que por respeito à sinalização de trânsito atravessou as duas pistas da avenida usando as faixas de pedestre, subiu a Sergipe arrastando seus pés, mas sem demonstrar cansaço. Vagaroso, foi assustado quarteirões adiante pela buzina de um carro que subia a rampa da garagem de um prédio. A motorista, uma jovem, havia na sua pressa de chegar ao trabalho ou à escola decidido que a calçada em frente de seu prédio é um lugar de direito seu. Que na subida, o carro tinha vez e o velho ou demais pedestres que esperassem. A buzina estridente era o aviso de sua decisão.
O velho pulou, entre o vacilo de apressar o passo para a frente, ficar parado ou se afastar. O velho corou e até demonstrou reação de revolta com as mãos, mas nada falou. Seguiu caminho solitário até onde o alcancei, para entregar a ele o número das placas, o modelo e a cor do carro, bem como o endereço do prédio de onde o veículo havido saído.
– E adianta alguma coisa, filho? Pra quem eu vou reclamar? Ainda mais a gente, que é velho...
Ponderei, disse que era um direito dele. Não aceitou os meus argumentos e demonstrou não querer a minha companhia naquela subida da Sergipe. Insisti até ganhar a confiança dele, embora minhas alegações sobre a validade de reclamar de situações como a que ele havia enfrentado não surtissem efeito.
Pelo menos ele conversava comigo, até pararmos por alguns minutos para um descanso numa praça da Quintino Bocaiúva. Foi onde ele contou a sua história e me deixou pensando:
– Como será comigo daqui a alguns anos? O que poderei deixar para meus filhos? Quantos carros tentarão me atropelar na calçada quando eu estiver arrastando as minhas pernas? E meus filhos e noras, como se comportarão comigo?

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