O Centro de Direitos Humanos (CDH) de Londrina, a subseção local da Ordem dos Advogados do Brasil e a Igreja Católica vão poder acompanhar pelo menos dois dos inquéritos policiais militares (IPM) que estão sendo realizados pelo comando do 5º Batalhão da Policia Militar (BPM) para apurar episódios de violência envolvendo policiais. A decisão foi tomada ontem de manhã em uma reunião entre o comandante do 5º BPM, tenente-coronel Robenson Máximo Fim, e representantes do CDH e Igreja.
Nos últimos 40 dias, a PM abriu seis IPMs – que são instaurados quando há suspeitas de crime praticados por policiais – e três sindicâncias. As entidades civis vão acompanhar os dois casos mais polêmicos: o do comerciante Nelson Felix de Melo, 61 anos, morto pela Pelotão de Choque em sua residência, no domingo passado; e o do menor Joni Otávio Torres, 15 anos, baleado por policiais militares dentro de uma viatura descaracterizada e que ficou paraplégico. Um ofício será encaminhado à OAB, convidando o órgão a acompanhar os IPMs.
A decisão, inédita, foi recebida com satisfação pelas entidades. Padre César Braga, assessor da Pastoral Carcerária e pároco do Jardim Interlagos – região onde residia o comerciante Felix de Melo – considerou o convite um ‘‘avanço’’. ‘‘Vim a esta reunião esperando apenas abrir um canal de diálogo com o comando da PM. Mas com este acompanhamento, vamos poder dar uma resposta à comunidade e às famílias, que cobram apenas justiça’’, afirmou.
A postura de transparência da PM na apuração dos possíveis crimes militares era uma das reivindicações do CDH. Segundo Jorge Custódio Ferreira, da comissão de Justiça do CDH, a abertura proposta foi bem-vinda. ‘‘Mas seria preciso a criação de uma ouvidoria para acompanhar não só estes como todos os casos’’, afirmou.
Na reunião, promovida a pedido do CDH, as entidades cobraram do comando do 5º BPM orientação firme aos soldados para evitar novos episódios do tipo. Segundo o tenente-coronel Fim, a violência nunca foi estimulada pela corporação, porém a atuação enérgica vai continuar sendo a tônica. ‘‘Estamos com informações pesadas sobre tráfico de drogas em determinadas regiões da cidade. E se tivermos que estourar estes pontos, vamos fazê-lo. Não vamos admitir que o tráfico tome conta da cidade. Eu preciso proteger Londrina’’, afirmou.
Segundo ele, as reclamações e queixas contra soldados da PM são minoria comparadas com os elogios que a corporação recebe de todos os setores da comunidade. ‘‘Mas elogios não dão manchetes’’, criticou. Porém, segundo o comandante, já estão programadas reciclagens com toda a corporação. ‘‘A cada semana, tiraremos entre 40 e 50 policiais das ruas e os traremos para cá, onde participarão de palestras e cursos de reciclagem’’, explicou.
A questão do estresse a que os policiais militares estão submetidos e os baixos salários também foram discutidos. Segundo Máximo Fim, o estresse é causado não pela escala de trabalho mas pelos ‘‘bicos’’ feitos pelos policiais assim como a insatisfação salarial seria ocasionada pela gratificação que alguns PMs conseguiram na Justiça e outros não. ‘‘Eu compreendo a necessidade do bico mas não posso admití-lo. Por isto, estamos estudando alternativas’’, sem antecipar quais seriam.
O tenente-coronel também convidou as entidades a estudarem com o comando as escalas de trabalho dos policiais. ‘‘É só agendar um dia para vir aqui que vamos analisá-las juntos’’, disse. Quanto à questão salarial, o comandante disse que foge de sua esfera de atuação.

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