Israel Reinstein
Cerca de cem cavaleiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná realizam hoje às 9 horas uma grande cavalgada em São Luiz do Purunã, município de Balsa Nova, encerrando o projeto Tropeiros do Brasil. Os cavaleiros percorreram mais de mil quilômetros e refizeram, em menos de um mês, o traçado dos antigos tropeiros, que desbravaram os estados do Sul do século XVIII até meados do atual.
‘‘O nosso movimento resgatou a alma do tropeiro, que foi a base da formação social e étnica dos três estados do Sul’’, afirma a comandante da cavalgada, Cleusa Dornelles de Andrade, lembrando que muitas cidades foram formadas ao redor dos pontos de abastecimento das tropas. Responsável pela condução dos 50 cavaleiros, que vieram do município gaúcho de Santo Ângelo, a advogada Cleusa conta que por onde passavam eram bem alojados, recepcionados com festas e presentes. ‘‘Os velhos e os jovens viam na nossa trajetória o passado que está sendo esquecido’’, diz, em cima de sua mula Juma.
‘‘O tropeirismo começou a morrer a partir da década de 60, com o transporte do animal por trem e caminhões’’, explica o idealizador da viagem, Velocino Fernandes. ‘‘Por causa disso, as calvagadas servem para mostrar à sociedade este personagem, que foi deixado de lado na história nacional’’, diz.
São pessoas como Francisco Souza, 83 anos, e Arlindo Soares, 76 anos. Chico Souza é tropeiro desde os 10 anos de idade. ‘‘Conduzi o gado do Jango (João Goulart) e do Getúlio (Getúlio Vargas)’’, conta o cavaleiro, que vive em São Borja, no Rio Grande do Sul. ‘‘O tropeirismo é minha vida e ar’’, acrescenta Arlindo Soares, que mora em Boa Ventura de São Roque, perto de Guarapuava, no Paraná.
Soares diz que ainda preserva a tradição. ‘‘Quando era pequeno, o troperirismo foi minha renda. Hoje tenho minha tropa de cavalos e mulas para continuar vivendo’’, diz. Para perpetuar a tradição, ele montou um centro de preservação da cultura. Uma vez por mês, Soares sai com uma tropa percorrendo algumas cidades. Com sua égua, ele dorme baixo de árvores. ‘‘Coloco o meu pelego no chão, estico meu poncho de lã, aquecido ao redor de uma fogueira’’, conta.
Cavalgadas - Velocino Fernandes informa que novas cavalgadas deverão ser realizadas, sendo que a maior será no próximo ano, quando grupos de cavaleiros deverão sair dos estados do Sul em direção à Brasília. ‘‘Vai ser realizado um grande rodeio na capital do País’’, avisa. Hoje, eles realizam um grande churrasco à moda gaúcha em São Luiz do Purunã.O roteiro incluiu mais de mil quilômetros nos três estados do Sul, onde muitas cidades nasceram nos pontos de pouso das tropas
Alessandra HaroTradiçãoFrancisco Souza, 83 anos e Arlindo Soares, 76, viveram o último mês em cima de uma cela, revivendo as emoções da antiga profissão

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