'Causos daqui e dali'
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Fernanda Carreira <br> <br> Reportagem Local 
''A imaginação corre solta, enquanto o pensamento fica suspenso no ar. É como se voltássemos às lembranças da infância.'' A definição da técnica em laboratório Silva Borba concretiza em palavras o que dezenas de olhares e variados sorrisos expressavam durante a apresentação da contação de histórias ''Causos daqui e dali'', anteontem à noite, no Sesc de Londrina. Sob o comando e a criatividade da dupla de artistas Edgar Abreu e José Rúbio da Silva (mais conhecido como Zé do Bode), os cerca de 100 alunos do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) tiveram o privilégio de ouvir emocionantes causos e surpreendentes piadas, que retratam um pouco da vida no sertão nordestino e em Sertãozinho (SP).
Abreu é filho de cortadores de cana nordestinos semianalfabetos, nasceu em São Paulo e, mesmo com uma infância de muitas privações, conseguiu se formar em Ciências Sociais em 2007. Anos mais tarde, o cientista social se especializou em Antropologia, em uma universidade em Barcelona (Espanha), onde morou por dois anos. Hoje, Abreu leciona em duas escolas da rede pública, trabalha como percussionista em uma banda de forró, além de participar de peças teatrais e atuar como repentista em espetáculos de contação de histórias com o sanfoneiro nordestino Zé do Bode.
A apresentação no Sesc faz parte da programação do 2º Encontro de Contadores de histórias de Londrina, que segue até o dia 21 de agosto, com ampla programação.
O antropólogo explica que todas as histórias da coletânea fazem parte da tradição oral passada de pai para filho no Nordeste e retratam um pouco da cultura da região. Por meio da música e da poesia presente nos repentes, o público conhece um pouco da rica diversidade cultural brasileira e até se identifica com histórias contadas pelos pais e avós.
''Quando eu subo no palco é para levar um pouco mais de poesia para a vida do público. Ela tem essa característica de amolecer, de acalentar os corações'', destaca o artista. ''A contação de histórias é sempre um meio atrativo para reunir as pessoas e permitir que cada um fale um pouco de si, do que viu, ouviu, viveu e por isso ela é tão rica e acredito que nunca se perca'', acrescenta.
Completamente envolvida com o clima intimista da apresentação, Silvia Borba diz que aprovou o espetáculo e que diversos causos contados pela dupla chegaram a ''teletransportá-la'' para a infância, no Recife (PE).
Reino da princesa
''Eu me lembro que minha mãe contava que subia em uma árvore na frente de sua casa e lá ficava por horas imaginando que era um princesa e que vivia em um reino, onde tinha tudo que sonhava. A imaginação era a única ferramenta que ela tinha para fugir da dura realidade de fome e sofrimento no nordeste'', observou Silvia. ''Quantas e quantas vezes eu não parei para ouvir as histórias da minha mãe ou mesmo a história da dona Joaninha, que era uma velhinha da rua da minha avó.''
Filha de pioneiros italianos, a estudante do 3º ano do EJA, Deise de Fátima Marinelli Nogueira confirmou que a contação de histórias foi um oportunidade interessante para relembrar as histórias sobre a chegada dos pais e avós em Londrina.
''Meu gosto pela leitura até surgiu a partir disso. Eu adorava ouví-los contando sobre o começo de tudo, como era a cidade e como viviam'', revelou Deise. ''A contação de histórias é tão bacana por isso, as pessoas se identificam com o que é contado, com a experiência das outras'', acrescentou.
Apesar de revelar não ser muito fã dos livros, o aluno do 3º ano do EJA, Michael Henrique Dias, enfatizou que o espetáculo foi uma iniciativa criativa para incentivar o exercício da imaginação entre alunos e a leitura. ''A performance dele, o que ele transmite, por meio da arte, realmente prende nossa atenção. Eu adorei o que vi hoje.''


