Católicos repensam o drama social das famílias migrantes
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segunda-feira, 15 de junho de 1998
Lúcio Horta 
Quem sabe faz a hora. O velho lema de Geraldo Vandré ainda pode ser atual. A frase, composta em meados da década de 60, durante os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, foi escolhida para ser o tema da Semana do Migrante deste ano. A semana começou ontem em todo o País e vai até domingo, dia 21, quando é comemorado o Dia Nacional do Migrante.
Organizada pela Pastoral dos Migrantes, da Igreja Católica, a semana tem como objetivo chamar a atenção da comunidade para um problema cada vez mais grave e urgente: o deslocamento das populações carentes dentro do Brasil. Além disso, a pastoral pretende também ratificar o caminho apontado pela Campanha da Fraternidade de 1998, que destacou a educação como caminho inevitável para construção de um país menos miserável e com mais justiça social.
Em Londrina, a data está sendo lembrada em todas as paróquias da Cidade, que tiveram orientação nesta semana para incluir o tema durante as liturgias. A Pastoral dos Migrantes também organizou na semana passada, como prévia das comemorações da semana, um seminário com o sociólogo João Batista Filho, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), para tratar sobre o assunto.
O padre Antônio Garcia Peres Neto, assessor da Pastoral dos Migrantes Regional Sul, define o migrante hoje no Paraná como o sem-nada, aquele que está na última camada da pirâmide social brasileira e não tem onde morar, o que comer e muito menos chances de estudar. A maioria do pessoal das favelas em Londrina, por exemplo, é de migrantes. Eles vieram da região procurar recursos numa cidade maior. Há migrantes em todas as 43 favelas ou ocupações de fundo de vale de Londrina, garante.
Padre Garcia explica que a crise do desemprego acertou em cheio as pequenas cidades ao mesmo tempo que a automação na agricultura vem tirando, nos últimos anos, os postos de muitos trabalhadores rurais. Hoje, uma máquina colheitadeira ocupa o espaço de 100 homens no campo. O resultado desse processo é imediato: ou os migrantes ficam pulando de uma cidade para outra, em épocas de colheita, à procura de trabalho - são os chamados bóias-frias - ou tentam a se estabelecer numa cidade maior, na esperança de conseguir vaga nas indústrias locais.
O processo de industrialização de Londrina, segundo o padre, também vem contribuindo cada vez mais para a atração de trabalhadores sem emprego para a Cidade. E o perfil desse pessoal, ao contrário das necessidades das grandes empresas, não ajuda na obtenção dos novos postos de trabalho: muitas vezes são doentes, analfabetos, desqualificados e com poucas condições de receber um treinamento profissional adequado. Em vez do serviço, eles apenas ajudam a aumentar os índices de desemprego, que são cada vez maiores.
O que está acontecendo com Londrina é parecidíssimo com o que aconteceu com Curitiba: o processo de deterioração da cidade, diz padre Garcia. Por isso, ele acredita, o município comete um grave erro ao anunciar com tanta ênfase os avanços industriais sem antes preparar uma infra-estrutura adequada para receber, inevitavelmente, a mão-de-obra desempregada. E Londrina tem espaço para isso, mas essas áreas normalmente são reservadas para grandes imobiliárias, que especulam na Cidade, critica.
Padre Garcia reclama também que não existem em Londrina pesquisas para determinar com exatidão quem são e o que querem os migrantes que chegam à Cidade a cada dia. Ele cita, por exemplo, o trabalho do professor João Batista - que apontou 101 mil desempregados na região - como um dos poucos disponíveis para avaliar o quadro atual. E o próprio João Batista afirmou, semana passada, que esse número pode chegar em breve a 200 mil desempregados, diz. É esse pessoal que está chegando à Cidade.
Há 10 anos, o perfil do migrante era outro, completamente diferente do atual. Na época também havia a pressão econômica, mas o contexto era diferente, não era a do desemprego em massa. O imigrante do passado vinha para cidade com uma reserva econômica. Ele alugava uma casa, não ia imediatamente para a favela ou fundo de vale. E ainda tinha alimento estocado, diz Garcia. Já hoje ele têm uma tática: Vou para um fundo de vale que com certeza alguém vai tomar uma atitude por mim. É assim que funciona.


