A reedição do livro ‘‘De Exorcismis et Supplicationibus Quisbusdam’’ (De todos os gêneros de exorcismos e súplicas) é considerada uma evolução pelo padre Helcion Ribeiro. Indicado pela Cúria Metropolitana de Curitiba como estudioso na área, o padre vê a reedição como uma adequação dos ritos religiosos. ‘‘Desde 1965, a Igreja vem simplificando os seus rituais, como o batismo, casamento e outros procedimentos’’, afirma.
O padre diz que atual visão pode ser interpretada como um aprimoramento, que leva em conta a ciência. ‘‘Para se qualificar que alguém está possuído, é preciso fazer antes a uma série de exames científicos’’, diz. Somente depois de ser avaliado por psiquiatras, neurologistas, parapsicólogos e outros especialistas, que averbem a incapacidade da ciência em curar o possuído, é que a Igreja Católica poderá avaliar se houve possessão.
Helcion Ribeiro, que presenciou apenas um caso de possessão em sua vida, entende que esta modernização evita colocar na mesma definição pessoas com problemas psicossociais. Para ele, os casos de exorcismos que acontecem atualmente em algumas igrejas são, na verdade, um instrumento fácil para ocultar a realidade das pessoas simples. ‘‘O diabo sé age em quem não acredita em Deus.’’
Padre Helcion entende que o catolicismo está se modernizando. ‘‘Os cristãos cometeram muitos erros ao identificar o diabo em qualquer lugar’’, diz.
Curitiba não possuiu mais padre exorcista. O último era Frei Miguel Bottasin, que morreu em 1997. Depois dele, a arquidiocese não procurou outro religioso para realizar este trabalho.
Frei Miguel trabalhou nesta função durante 30 anos, mas antes disso já estudava o assunto. Para ele, a possessão não era um fato comum e, por isso, não ocorria em qualquer pessoa. Em toda a vida do frei, que viveu 72 anos, ele teria se confrontado com o diabo apenas cinco vezes. Em cada um dos casos, ele garantia que havia conseguido exorcizar Satã. O frei evitava contar detalhes dos casos, porque queria resguardar os possuídos, que poderiam sofrer preconceitos.
Talvez, por isso, o religioso condenasse as ‘‘expulsões em escala industrial’’ feitas por algumas igrejas. Para ele, os seus colegas viam demônios demais. O frei dizia que o diabo só dominava alguém que lhe desse permissão. Assim, aos seguidores tentava passar toda a fé cristã para não ter que exorcizá-los.
Segundo o cardeal chileno Jorge Arturo Medina Estévez, que editou o novo manual de exorcismo da Igreja Católica, existem dois tipos de ações demoníacas: ‘‘Um mais espetacular, que é a obsessão ou a possessão diabólica, que são fatos excepcionais e não muito frequentes. Para estes casos raros o exorcismo é necessário. Outro tipo de ação demoníaca, muito mais frequente, é a influência do diabo em todos os lugares, na mentira, corrupção, violência, no erotismo desenfreado. Para esse tipo não há necessidade de exorcismo’’.
A seleção de casos, segundo o cardeal, vai restringir e educar o fiel. ‘‘O exorcismo deve ser feito diante de um fenômeno muito particular e preciso, como a obsessão ou a possessão’’, comenta.
Assim também pensa o bispo de Maringá, Dom Murilo Krieger. Para ele, ‘‘diante do avanço da medicina, mais precisamente da psicologia e da psiquiatria, nós podemos perceber que a grande maioria das pessoas que nos procuram pedindo um exorcismo têm, na verdade, problemas afetivos. Esses casos poderiam ser tranquilamente resolvidos pela psicologia’’.
Krieger acredita que o novo ritual do exorcismo vai limitar os casos. ‘‘Vamos cuidar apenas dos casos extremamente graves, raros. Mas não tenham dúvida de que o diabo existe mesmo e que existe a possibilidade de que ele se apodere do nosso corpo, domine nosso espírito. Mas é algo muito raro’’, diz o bispo.
Dom Murilo não descarta a hipótese de a igreja trabalhar junto com psicólogos e psiquiatras para poder identificar melhor os problemas de cada um dos que se acham possuídos pelo demônio.
Sobre a quantidade cada vez maior de católicos que participam de sessões de exorcismo realizadas por pastores de igrejas evangélicas, dom Murilo Krieger diz: ‘‘O meu rebanho pode ser dividido em três: 33% que frequentam mesmo a igreja, participam de cursos e das pastorais; 33% frequentadores eventuais; e 33% que dizem que são católicos mas que só vão às missas uma vez por ano’’. Neste último grupo estariam incluídos os que procuram sessões de exorcismos em igrejas evangélicas.

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