Catedral rejeita velho órgão, que pode virar peça de museu
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quarta-feira, 29 de outubro de 1997
Lúcio Horta 
Londrina
Quem imaginou que a novela sobre o antigo órgão de tubos da Catedral de Londrina teve seu último capítulo em 1994, quando o instrumento finalmente voltou à Cidade, estava redondamente enganado. Uma nova iniciativa, desta vez da própria Cúria Metropolitana, promete tirar o órgão da Catedral e depositá-lo no Museu Histórico Padre Carlos Weiss.
A alegação é que o instrumento não pode mais ser consertado e, portanto, perdeu a sua função musical. Além do mais, segundo o monsenhor Bernard Carmel Gafá, o antigo órgão não combina com as linhas estéticas da nova Catedral. Isso (o órgão) é uma coisa morta, que não funciona e está num lugar que não combina, diz o monsenhor. É um estorvo pelo estilo, pelo espaço que ocupa, pelo lugar, por tudo.
Bernard Gafá não acredita que a decisão de tirar o instrumento da Catedral possa causar mal-estar, sobretudo entre as pessoas que participaram das campanhas para trazer o órgão de volta à Cidade, no começo da década. Na época, até mesmo um número de telefone foi disponibilizado pela Sercomtel para receber doações da comunidade e, assim, pagar pela restauração do instrumento. Não acho acho que vai haver discussão, mesmo porque não adianta nada um elefante branco como este ficar estorvando a Catedral, diz. É um saudosismo que eles mesmo não sabem explicar. São pessoas que nunca pisaram na igreja.
Segundo o monsenhor, não cabe à Catedral decidir qual o destino do órgão. O órgão é da UEL (Universidade Estadual de Londrina), é a universidade quem vai decidir o que fazer com ele, aponta Bernard Gafá. Se funcionasse, eu aceitava. Como não funciona, não tem razão de ser. Estou esperando uma solução.
Difícil, agora, é saber quem vai tomar a decisão sobre o destino do órgão. O reitor da UEL, Jackson Proença Testa, afirmou ontem que na semana passada uma comissão especial se reuniu para tentar uma definição para o problema. A palavra final é da direção do Museu. Mesmo que o órgão não caiba lá, a solução fica por conta do Museu, diz o reitor.
Já a diretora do Museu Histórico Padre Carlos Weiss, Conceição Duarte Geraldo, acredita que será necessário criar uma comissão técnica para indicar um lugar adequado para levar o instrumento. E os componentes dessa comissão, ela diz, teriam que ser indicados pelo próprio reitor Jackson Proença Testa.
Enquanto isso, a iniciativa de tirar o órgão da Catedral caiu como uma bomba junto àqueles que lutaram tanto para que o instrumento voltasse à Cidade. A Sociedade Amigos do Museu Padre Carlos Weiss, por exemplo, já se manifestou dizendo que prefere ver o órgão no local de origem, ou seja, na Catedral de Londrina. Elenice Mortari Dequech, integrante da Associação, considera que levar o instrumento para o Museu é um desrespeito a todas as pessoas e entidades que lutaram para trazer o órgão de volta à Cidade.
Se for necessário, a gente recebe o órgão com o maior carinho. Mas estamos preocupados porque não podemos dar a ele o espaço que merece. Preferíamos que ele ficasse na Catedral, que é seu lugar, e também em respeito às pessoas que participaram da campanha, diz Elenice. Ela aponta que, mesmo sem funcionar, o órgão poderia ter uma inscrição apontando que ele faz parte do Museu, da Catedral e da história de Londrina.
Elenice Dequech tem outra preocupação: desmontado, o órgão poderia perder todo o investimento já feito para tentar recuperá-lo. Além do mais, ela aponta, o Museu não tem hoje nenhuma sala que comporte um instrumento com seis metros de altura, oito toneladas e que precisa de um espaço mínimo de trinta metros quadrados. Outro detalhe: o restaurador Edmundo Lins, que trabalhou com o órgão nos últimos anos, enviou fax ao Museu indicando que, se forem feitas algumas alterações e investimentos, o instrumento poderia ser totalmente recuperado, voltando a funcionar.
A Folha ligou ontem para a casa de Edmundo Lins, em Indaiatuba, interior de São Paulo, para tentar descobrir o que falta para o órgão funcionar direito e também qual seria o custo do serviço. O restaurador, no entanto, estava trabalhando fora de casa e não foi encontrado.


