Catadores se recusam a participar de ONGs
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sábado, 11 de dezembro de 2004
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
O cansaço e a insegurança fazem parte da rotina do catador de material reciclável Renato (nome fictício), 28 anos, que há seis recolhe papel nas ruas da Área Central de Londrina. A atividade é a única fonte de renda da família, formada por Renato, a mulher e dois filhos pequenos. A falta de garantia de rendimento, no entanto, não assusta o catador, que trabalha por conta própria. Ele é um dos cerca de 50 recicladores que atuam no quadrilátero central da cidade e resistem a ingressar nas organizações não-governamentais (ONGs) do setor.
Sem a estrutura das ONGs, os catadores dividem espaço com o movimento de carros e ônibus, correndo risco de acidente e complicando o trânsito. A atividade é realizada também pelas crianças, que deixam a escola para trabalhar e ajudar no sustento de familiares. Apesar das dificuldades, os catadores independentes afirmam que conseguem ganhar mais fora das entidades organizadas.
A liberdade de horário é apontada como outra vantagem importante. ''Na rua, sou eu e Deus. Ninguém manda em mim. O material que eu consigo é todo meu. Não tenho que dividir com ninguém'', ressalta Renato. Os locais de coleta nos bairros são divididos entre as ONGs. Na região central, o loteamento informal funciona: cada catador tem seus fornecedores e não invade a área dos concorrentes.
Renato lamenta apenas a perda de fornecedores. Dois edifícios, que forneciam até 100 quilos de jornal por dia, passaram a entregar o material exclusivamente para as ONGs. ''A organização trouxe prejuízo de pelo menos 90% para mim. Além de não ter apoio, meu trabalho foi atrapalhado'', lamentou.
A organização de 26 entidades, feita há quatro anos, disciplinou o trabalho. A consequência foi a criação do Conselho dos Profissionais de Reciclagem de Resíduos Sólidos de Londrina (Cepeve), que compra o material recolhido pelas ONGs e encaminha para as empresas recicladoras.
O coordenador do programa de coleta seletiva da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), José Paulo da Silva, afirma que o método de recolhimento e a quantidade de material são os maiores atrativos das ONGs. Nas entidades organizadas, a coleta é feita de porta em porta e conta com a colaboração da comunidade, que fica responsável pela separação dos produtos recicláveis. ''O resultado depende da colaboração da comunidade, que se sensibilizou e levou Londrina a obter os melhores resultados do País em reciclagem'', salientou.
A cooperativa também proporciona maior capacidade de negociação. De acordo com a CMTU, a média de recolhimento dos independentes é de 150 quilos por dia. Os cooperados, que podem coletar outros tipos de material como alumínio de latinhas recolhem até 300 quilos. Já o recolhimento exclusivo de papel e papelão exige grandes quantidades para a venda.
Uma taxa que varia entre 3% e 5% é cobrada dos recicladores para manter o funcionamento do Cepeve. O dinheiro também é usado para prensagem de garrafas pet, que possibilita maior preço na venda do plástico. O quilo de pet prensada é vendido por R$ 1,00. Sem prensar, o preço máximo é de apenas R$ 0,40. Silva ressalta ainda que a entidade não cobra porcentagem sobre o recolhimento dos cooperados.
Membro de uma ONG da Área Central, Hélio Fernando da Silva, 25, considera vantagem fazer parte da organização. ''A gente consegue vender a preço melhor por ter mais quantidade'', revela o catador, que está há quatro na entidade e tem renda média de R$ 380 por mês.


