Transformado em atividade econômica e fonte de sobrevivência pelos excluídos do mercado de trabalho, o lixo passou a ser disputado por um número alarmante de pessoas. A concorrência levou os ‘‘empresários do lixo’’, que antigamente interessavam-se apenas pelo papel, a pegar todo tipo de resíduo com possibilidade de reciclagem. Eles lotam seus carrinhos e depois de separar o que lhes interessa, acabam se livrando do restante em qualquer terreno. O resultado são as inúmeras lixeiras a céu aberto espalhadas por Londrina.
A maioria não sabe o que fazer do lixo que não serve para comercialização. Artur Coelho, 49 anos, diariamente amontoa no quintal de sua casa no Jardim Santa Fé, zona oeste, uma grande quantidade de lixo. ‘‘O que eu não posso aproveitar jogo num terreno aqui perto. Não tem um lugar certo pra gente se livrar do lixo’’, reclama.
Os carroceiros que prestam serviços de aluguel retirando entulhos de terrenos e residências também despejam o material coletado em terrenos vazios. Numa rápida andada pela cidade é possível ver diversos carroceiros. A Companhia Municipal de Transporte e Urbanização (CMTU) não tem um levantamento da quantidade de catadores de lixo que atuam na cidade. As pessoas que estão no ramo porém afirmam que há mais dois mil.
Carlos Eduardo dos Santos, 27 anos, há 20 na ‘‘profissão’’, afirma que todo dia chega um novo catador. Número oficial, pela CMTU, existe apenas o de depósitos de papel que passou de 38 para 76 e se transformou em depósito de todo tipo de lixo com possibilidade de reciclagem. Disciplinar a atividade dos catadores, garantindo-lhes uma fonte de renda, é um dos desafios da Prefeitura que discute a terceirização do serviço de coleta de lixo.
O presidente da CMTU, Wilson Sella, admite que ainda não tem nem um mapeamento de todos os terrenos transformados em bota fora e nem a quantidade de catadores que atuam na cidade. O único mecanismo utilizado atualmente pelos fiscais, na tentativa de evitar que o lixo seja despejado em locais impróprios, é a orientação verbal.
Sella admite que é difícil obter sucesso e que começará a envolver a comunidade nesta ação. No dia 28 próximo ele irá conversar com os moradores do Jardim Santa Fé, que a Folha mostrou ter vários terrenos servindo de depósito de lixo. ‘‘Vamos tentar junto com a comunidade uma forma de conter esta ação’’, afirma o presidente da CMTU.
Apesar de não ter ainda um projeto acabado para disciplinar a atividade dos catadores, Sella afirma que com a implantação da coleta seletiva, haverá uma redução de lixo e, consequentemente, os catadores atuarão menos. A idéia, de acordo com Sella, é transformar esta população em colaboradores da coleta seletiva, colocando-os para trabalhar na produção de objetos a partir do lixo reciclável – mangueiras, vassouras, camisetas e outros. ‘‘Vamos agregar ao lixo um valor real e social’’, diz.
As caçambas para que os carroceiros depositem os entulhos de construção civil é outra solução para evitar o despejo em terrenos vazios, segundo Sella. O cadastramento dos catadores deverá ser o próximo passo, segundo Sella, depois da implantação da coleta seletiva. A educação ambiental para levar a população a separar o seu lixo é outro projeto em fase de amadurecimento.
‘‘Estamos num processo de aprendizagem’’,explica Sella. ‘‘Estamos buscando a linguagem correta para chegar à população. Sabemos que tem que ser uma linguagem com enfoque para a qualidade de vida’’.
Sella afirma que este trabalho já foi iniciado com estagiários que estão nas ruas orientando a população, com os próprios caminhões de coleta seletiva passando regularmente, com camisetas, jingles, panfletos. ‘‘Em menos de um mês triplicamos a quantidade de coleta de lixo reciclável’’.

mockup