Catadores de recicláveis unem-se para ampliar seus direitos
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terça-feira, 10 de julho de 2007
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Enormes montanhas de lixo de todos os tipos. Um cheiro que beira o insuportável. Gases tóxicos sendo exalados pelos dejetos. Aves de rapina por todos os lados. Ratos. Tem sido em um cenário como este que milhares de pessoas adultos e crianças em todo o Brasil, vem tirando o sustento de suas famílias nas últimas décadas.
A má notícia é que ainda hoje essa triste realidade é encontrada em lixões de algumas cidades do país. Porém, a história de quem ganha a vida coletando aquilo que não serve para outras pessoas está mudando, e para melhor, na maioria dos municípios brasileiros.
Aquecimento global Em uma época em que a maior dor de cabeça da humanidade atende pelo nome de aquecimento global, os aterros sanitários estão substituindo os lixões, e, já há algum tempo, a palavra reciclagem passou a fazer parte, para valer, de nosso vocabulário.
Nesse contexto, os catadores deixaram as montanhas de lixo para trás, uniram-se, criaram cooperativas, organizaram um movimento nacional, instituíram um dia de mobilização da categoria 7 de junho e viram políticos criarem leis relacionadas ao seu trabalho (veja info nesta página).
Contudo, a maior comemoração vem do fato de o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) ter incluído, em 2002, a profissão de catador de material reciclável em sua Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Isso significa que, por meio de suas pesquisas, o Ministério constatou a existência e a importância dessa profissão, que daqui para frente vai passar a fazer parte das estatísticas, pois o CBO é o critério utilizado por quem pesquisa profissões, inclusive os recenseadores, informou à FOLHA a assessoria de imprensa do MTE.
Exemplo local Em Londrina, a história da coleta seletiva começou em 2001. Foi naquele ano que a prefeitura resolveu tirar do lixão da cidade os cerca de 60 catadores que lá trabalhavam. Uma missão nada fácil como recorda a responsável pela área de resíduos sólidos do Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), Rosimeire Suzuki Lima.
Segundo ela, a preocupação do poder público era com a saúde e a segurança daquelas pessoas. Vale lembrar que o local já havia sofrido dois grandes incêndios, em 1984 e 1998, sendo que o primeiro levou 47 dias para ser controlado.
Porém, mesmo com a comprovada insalubridade do lixão, a resistência dos catadores tinha os seus motivos. A coleta seletiva ainda era desconhecida, deles e da população. Os coletores sabiam que a diminuição de renda seria inevitável.
É o caso de Edson Isaías da Silva, 40 anos. Ele começou a trabalhar no lixão quando perdeu sua mãe, aos 13. Lá ficou por duas décadas. Criou cinco filhos com o dinheiro conquistado no garim-po. Desde 2001 trabalhando com outras 12 pessoas na Organização Não Governamental (ONG) Refúgio, Edson ainda lamenta a queda de seus rendimentos. No lixão, chegava a faturar R$ 2 mil por mês. Na ONG, lucramos, em um mês bom, R$ 500, queixa-se, deixando claro que se não tivesse sido obrigado a sair, estaria até hoje no lixão.
Movimento nacional De acordo com Severino Lima Júnior, da equipe de articulação do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, essa resistência não foi exclusiva de Londrina. No lixão conseguimos uma renda melhor e sem depender de que outras pessoas nos doem o material. Por isso, a resistência é natural, mas devemos lembrar que ganhamos muito em qualidade de vida, por isso, hoje empunhamos a bandeira que pede um Brasil sem lixões, relatou Severino, que esteve na cidade na última semana participando do 2º Seminário Regional Sul de Resíduos Sólidos.
Ele explica ainda que o momento é de organização para os cerca de 100 mil catadores brasileiros. Além da luta pelo fim dos lixões, é hora de pedir também que sejam cumpridas as leis e as diretrizes do governo federal para esses profissionais. Em outras palavras, é preciso pôr em prática o que está no papel ou não passa de discussão.
Para se ter uma idéia do prestígio dos catadores junto ao governo Lula, existe um Comitê Interministerial de Inclusão Social dos Catadores. Além disso, o próprio presidente os recebe, desde 2001, sempre no dia 23 de dezembro, para comemorar o Natal.
É um avanço, mas precisamos melhorar. Prestamos um grande serviço. Estamos fazendo um levantamento da quantidade de lixo que retiramos do meio ambiente em todo o Brasil. O número, sem dúvida, será grandioso, mas nossas condições de trabalho ainda são precárias. Precisamos do apoio do poder público, principalmente das prefeituras. Só para citar um exemplo, trabalhamos sem carteira assinada, o que é um direito de qualquer trabalhador, reinvidica.


