Cassação de passaportes atinge 300 mil descendentes de italianos
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quinta-feira, 05 de novembro de 1998
Israel Reinstein 
Quase 300 mil italianos trentinos e descedentes, que vivem no Paraná e Santa Catarina, estão em conflito com o Consulado Geral da Itália por causa da dupla cidadania. A afirmação é do presidente brasileiro da Unione Triveneti nel Mondo, Arno Dal Ri, que representa, no Brasil, italianos das regiões de Trento, Friuli e Vêneto. Dal Ri diz que o consulado está discriminando os trentinos dos dois Estados. O cônsul Gianne Piccato rebate as afirmações, informando que o consulado sempre esteve aberto para dialogar sobre o assunto, mantendo os todos os italianos informados.
Dal Ri afirma que a briga da comunidade trentina e o consulado foi motivada pela cassação dos passaportes emitidos aos descendentes, que passou a ser feita em larga escala desde a posse do atual cônsul. O que está acontecendo é uma pouca-vergonha, com o consulado fazendo de palhaço o cidadão brasileiro, validando a nacionalidade italiana e depois retirando arbitrariamente, sem respeitar o direito adquirido, afirma Dal Ri. Ele acrescenta que quase 300 mil pessoas teriam conseguido o passaporte, sendo que a maior parte já foi cassada. O cônsul discorda desse número, mas não fornece o total de italianos na situação.
Mauro FrassonO cônsul Gianne Piccato explica que os trentinos perderam o direito à cidadania quando não optaram por ela em 1919, no Tratado de San GermanPara o presidente do Circolo Trentino de Curitiba, Tarcísio Setti, a cassação dos passaportes é fruto da letra fria da burocracia, que não permite sequer a possibilidade de defesa a quem conseguiu o passaporte. Existe um dispositivo legal dentro da lei de imigração italiana, o Status Civitas, que permite a comprovação da descendência, diz. Mas, segundo Gianne Piccato, este documento não pode ser empregado neste caso. Ele explica que os descedentes dos trentinos teriam perdido o direito à cidadania, quando não optaram por ela, em 1919, no Tratado de San German. Esse tratado devolveu áreas italianas, que haviam ficado sob domínio do império austro-húngaro, e estabeleceu quem tinha direito à cidadania.
O problema é que houve uma motivação por parte dos consulados para que os trentinos conseguissem a cidadania, comenta a consultora da Província de Trento no Brasil, Iracema Casu, lembrando de deputados italianos que vieram ao Brasil para este fim. Com isso, muitos trentinos ganharam passaporte, que iriam dar direito a voto, projeto que foi derrubado recentemente no congresso italiano.


