Casos contrariam a lógica
Casos contrariam a lógica
DivulgaçãoWaldemar Gonçalves, fotógrafo-auxiliar da Polícia TécnicaOs dois processos arquivados como suicídio e agora reabertos pela Justiça Federal no Mato Grosso do Sul contrariam a lógica. No dia 2 de janeiro de 98, o adolescente kaiowá Lindomar Cavalheiro, 16 anos, foi encontrado morto com uma camiseta que não era sua amarrada ao pescoço e presa ao galho de uma amoreira.
Testemunhas afirmam que o galho não suportaria mais do que 10 quilos de peso, sem vergar-se até o chão. Lindomar pesava cerca de 65 quilos. A simples visualização da cena foi um flagrante absurdo, conta o radialista Waldemar Gonçalves, fotógrafo-auxiliar da Polícia Técnica de Dourados e o único não-índio a chegar ao local antes do corpo de Lindomar ser retirado da árvore.
Em 7 de dezembro do ano anterior, menos de um mês antes do suposto suicídio de Lindomar, seu amigo Josué Serrano, 17 anos, também foi encontrado morto, com o pescoço amarrado ao tronco de um pé de bananeira. A cena revelava outro absurdo, relata Golçalves. As duas mortes parecem estar relacionadas. Josué era um dos amigos mais próximos de Lindomar. Mas o mistério não acaba aí.
No dia seguinte à morte de Josué, outro jovem indígena do mesmo grupo morreu em circunstâncias estranhas. Aguimar Peixoto, 20 anos, tio de Lindomar, foi violentamente espancado por membros do Conselho Indígena, também chamado Polícia Indígena, diante de dezenas de testemunhas, assim que saiu do velório de Josué. Meia hora depois, foi encontrado morto, com o pescoço amarrado numa alça fina de nylon. A outra extremidade da alça havia sido presa em uma árvore de porte médio, com a clara intenção de simular suicídio.
Este foi o único dos três casos em que a hipótese de suicídio foi descartada pelos próprios peritos da Polícia Civil. O laudo necroscópico, anexado ao inquérito policial, dá como causa da morte o espancamento violento da vítima, que provocou fratura craniana. Nos outros dois supostos suicídios, o laudo necroscópico admite morte por enforcamento. Em nenhum dos casos foi realizada a autópsia.
Em junho passado, o médico Antonio Carlos de Queiroz analisou as fotos de índios que teriam se suicidado nos últimos anos. Queiroz reúne duas qualificações importantes para falar sobre o assunto. Ele é médico aposentado pela Funai e trabalhou durante anos com os índios guaranis no Norte do Paraná. Hoje, dirige o Instituto Médico-Legal (IML) de Londrina. Em qualquer lugar do mundo, a simples observação visual destas fotos colocaria sob suspeita a tese de suicídio, garante.
O juíz João Adolfo Astolfi, que há mais de 15 anos atua como titular da 3ª Vara Criminal em Dourados, também coloca em dúvida a exatidão dos laudos. Mas é conciliador. Infelizmente, a Polícia Técnica é totalmente desaparelhada em nosso município. O laudo necroscópico, quase sempre, é emitido apenas com base na observação visual do cadáver e no depoimento dos policiais que registraram a ocorrência, admite.
No início deste ano, quando foi indicado para investigar o caso dos suicídios, o procurador federal Sílvio Amorim conheceu de perto a realidade do IML de Dourados e ficou asssustado. Em algumas ocasiões, os especialistas não tinham nem água destilada para realizar os exames, afirma.





