Uma cirurgia inédita realizada na última terça-feira em Londrina reforça a característica que a cidade adquiriu nos últimos anos, de excelência na área médica. Uma paciente de 38 anos, moradora de Lupionópolis (105 km ao norte de Londrina), que já havia retirado o útero, teve gravidez tubária (fecundação em uma das trompas) e foi submetida a uma cirurgia via vaginal, método que lhe permitiu ter alta e voltar para casa em 24 horas. A literatura médica não registra nada parecido, já que nos seis casos de gravidez em mulheres submetidas a histerectomia já registrados no mundo foi usada a técnica de laparotomia (cirurgia com corte abdominal clássico) ou laparoscopia (com pequeno corte no umbigo) para a interrupção da gestação.
Segundo o ginecologista e obstetra Dalmo Borges Ramos Junior, responsável pela cirurgia, a opção por este tipo de técnica foi feita, acima de tudo, pelos benefícios que apresenta às pacientes. ''Londrina já tem tradição nas cirurgias via vaginal para tratamento de várias doenças da mulher. Trata-se de um recurso bem menos agressivo, de custo reduzido e que permite a alta precoce da paciente'', explicou.
O médico esclareceu que a gravidez tubária representa um grande risco para a mulher e tem que ser interrompida o mais rápido possível. ''A possibilidade de hemorragia por ruptura da trompa é muito grande, e, neste caso, a mulher pode morrer em questão de horas.'' A paciente procurou o consultório do médico na última segunda-feira e a cirurgia foi realizada no dia seguinte no Hospital da Mulher.
''Os primeiros sintomas foram de dores no corpo - principalmente nas mamas e abdômem - e a suspeita inicial, no pronto-socorro onde foi atendida, foi de apendicite. O exame de ultrassom, porém, mostrou uma massa na trompa esquerda. Confirmada a gravidez, de aproximadamente cinco semanas, não houve outra alternativa senão a interrupção'', ressaltou o ginecologista. No momento da cirurgia, segundo o médico, a trompa da paciente já estava parcialmente rompida e havia sangue na cavidade pélvica.
De acordo com Ramos Junior apenas casos de gravidez abdominal - quando a placenta se implanta em órgãos como intestino e bexiga - levados a termo já foram registrados pela literatura da área. Ele observou que se um dos métodos tradicionais tivessem sido utilizados para interromper a gestação provavelmente a paciente só teria alta 72 horas após o procedimento. ''De todas as cirurgias que realizo atualmente, 80% são feitas pela via vaginal, por isso acredito que a grande maioria dos casos de gravidez tubária também pode ser resolvida por este método, embora ainda não exista registro científico a respeito.''
A técnica, de acordo com o obstetra, é a mais adotada nos países europeus, e seu principal difusor no País é outro londrinense, o ginecologista e obstetra Otacílio Figueiredo, que chegou a escrever um livro sobre o assunto. ''A qualificação para este tipo de cirurgia é o que diferencia o ginecologista do cirurgião geral'', observou Ramos Junior.

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