São Paulo – A morte da menina Isabella Nardoni colocou muitas dúvidas na cabeça das crianças, e os adultos têm sido pegos de surpresa com as mais inusitadas perguntas sobre o caso. A reportagem levantou 15 questões respondidas pelos pais a seus filhos. Os diálogos foram analisados pela psicopedagoga Maria Irene Maluf.
Além de questionamentos pontuais sobre o caso, os pequenos trazem à tona a insegurança que sentem ao tomar conhecimento de um crime cometido contra um igual – uma outra criança. Em vez de desligar a TV durante o noticiário quando a criança estiver por perto ou cortar rapidamente o assunto, psicólogos, filósofos e psicopedagogos são unânimes ao ressaltar que diálogo é o melhor caminho. E, para as dúvidas inusitadas, a dica é perguntar o que eles sabem sobre o assunto para, a partir daí, dar uma resposta clara, sem excesso de informação.
De acordo com a psicóloga do Departamento de Psicologia Experimental e Trabalho do Laboratório de Neuropsicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Flavia Heloisa dos Santos, quando um caso de grande impacto como o de Isabella surge na mídia, o diálogo entre pais e filhos é fundamental. ‘‘A curiosidade da criança deve ser o ponto de partida. Os pais devem tomar como referência o próprio discurso da criança, que indicará suas preocupações, seu entendimento da problemática e suas fantasias.’’
Para enfrentar a curiosidade infantil, o ideal, segundo Flavia, é que os pais analisem qual é a real capacidade que o filho tem para compreender o assunto. E, de preferência, a iniciativa deve ser da criança.
No caso Isabella, as perguntas levantadas pela reportagem mostraram que as crianças transferiram a questão externa (a morte da menina) para um referencial interno e pessoal (seus próprios medos) e, por isso, de acordo com Flávia, a orientação dos pais deve ser diretamente relacionada ao que aflige a criança. ‘‘Por exemplo, o medo da morte, o medo de não ser amado. É muito importante que os pais esclareçam que o caso da Isabella é uma situação isolada, uma exceção.’’
Explicações - A psicopedagoga Maria Irene Maluf explica que, quando os filhos fazem uma pergunta, os pais não devem se limitar a uma única resposta e devem ter em mente que uma pergunta feita por uma criança geralmente representa apenas a ponta de um iceberg. ‘‘É preciso tentar descobrir o que está por trás. Quando a criança pergunta não tem capacidade para transmitir em uma só questão toda a sua dúvida’’, explica.
A confusão gerada pelo excesso de informações e o possível envolvimento da família na morte de Isabella afeta a todos e com as crianças não é diferente. Para a psicóloga da Educação Infantil do Colégio Santo Américo, Rosane Moderno Schiller, o caso Isabella é um bom momento para os pais conversarem sobre juízo de valor. ‘‘Os pais têm de agir como protetores de seus filhos, têm de dar a garantia de que nada do que Isabella tenha feito justifica o crime. E, caso eles tenham medo de dormir, por exemplo, a postura tem de ser de proteção, dizer que nada de mau vai acontecer.’’
Rosane diz também que é fundamental os pais explicarem aos filhos que é necessário esperar a conclusão das investigações antes de apontar qualquer pessoa como responsável por um crime.
Um personagem dos contos de fada voltou a rondar o imaginário das crianças com as notícias do caso Isabella: a madrasta. ‘‘É preciso deixar claro que madrasta não é sinônimo de pessoa má. Mas também não podem banalizar essa relação, dizer que a madrasta é como uma mãe. Tem de trabalhar com a verdade, mostrar para as crianças que essa às vezes pode ser uma relação trabalhosa’’, explica a psicóloga do colégio Santo Américo.

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