Lentidão nas investigações, necrópsia realizada 15 dias depois da morte, apesar do corpo ter dado entrada no Instituto Médico-Legal (IML), 32 dias para ouvir o único suspeito pontuam o inquérito policial sobre a morte da professora de música Maria Estela Pacheco, 35 anos, que se arrasta há quase dois meses sem conclusão. Apesar de existir apenas um único suspeito, o agropecuarista Mauro Janene Costa, das inúmeras contradições em seus depoimentos e de tecnicamente estar comprovado que a professora já estava morta quando foi atirada do 12º andar, a polícia ainda não sabe quando irá concluir o caso.
O promotor Miguel Jorge Sogaiar declarou, quando ainda estava na 1ª Vara Criminal, que os elementos levantados até agora já são suficientes para oferecer denúncia. O delegado-operacional da 10ª SDP, Jurandir Gonçalves André, terceiro delegado a presidir o inquérito, disse que ainda não sabe quando concluirá as investigações. Ele adiantou apenas que o inquérito está praticamente concluído. Primeiro, Jurandir André declarou que se tratava de homicídio, depois disse que não podia fazer tal afirmação antes da conclusão do inquérito.
Dúvidas e contradições permeiam as investigações desde o início. O corpo deu entrada no IML com indicação de suicídio e, como as lesões externas se concentravam apenas na cabeça, foi realizado somente o exame externo. Depois de 15 dias, segundo o médico-legista Rogério Eisele, quando o IML teve acesso às fotos do corpo no local onde foi encontrado é que se verificou que ela já estava morta quando caiu. Só então foi realizada a necrópsia.
Mais de um mês depois da morte da professora, o laudo do IML foi concluído sem precisar o que a matou. No atestado de óbito constou morte por traumatismo craniano. Eisele disse que a demora na realização da necrópsia não interferiu no resultado do laudo, mas afirmou que a demora na troca de informações entre o IML, o IC e a polícia dificultou o trabalho.
Segundo ele, ‘‘a causa da morte não foi determinada porque o que a provocou não deixa marcas (compressão do nervo vagal da garganta, interação de drogas)’’, disse. Outra falha no caso foi a não realização de exame para detectar se a professora teria utilizado drogas. O único exame feito deu negativo para cocaína. Eisele afirmou que faltou sangue para realizar os outros exames. ‘‘Eu enviei para Curitiba dois frascos de sangue, mas um se deteriorou no caminho’’, explicou.
Apesar de o exame toxicológico não ter detectado o uso de cocaína, testemunhas que estiveram com Estela e Mauro no dia do crime afirmaram que ela usou a droga. Eisele chegou a mencionar a possibilidade de um falso negativo de cocaína, caso o sangue tenha descongelado durante o transporte, mas depois descartou esta hipótese. ‘‘Teriam ligado de Curitiba para o IML dizendo que o material coletado não dava para ser examinado’’, afirmou.
Outra possível falha no caso foi a demora da polícia em convocar o depoimento do único suspeito, o agropecuarista Mauro Janene Costa. Ele só prestou depoimento quando o promotor Miguel Jorge Sogaiar pediu sua prisão temporária, alegando que já tinham se passado 32 dias da morte sem que ele fosse ouvido. Só com a prisão de Mauro Janene é que foi possível ouvir também Paulo Cesar Roca, o PC, que teria estado com o casal no Bar Valentino, pouco antes do crime.
‘‘Uma intimação foi enviada para a casa da namorada dele (PC). Ela disse que não sabia onde ele estava e que ele não se apresentaria’’, afirmou o promotor, antes de deixar o caso para assumir a 2ª Vara Criminal. A delegada Waldete Testoni, primeira a presidir o inquérito, chegou a afirmar que ouviria Mauro Janene só depois que o laudo do IML estivesse concluído. Segundo o promotor isto seria prejudicial porque a defesa seria montada já de acordo com o laudo. Com a interferência do Ministério Público no intuito de agilizar as investigações, a delegada pediu afastamento do caso, alegando motivos pessoais.
O delegado-adjunto João Eduardo Carulla assumiu o caso, mas o passou para o delegado-operacional da 10ª SDP, Jurandir Gonçalves André, na última segunda-feira para entrar de férias. Apesar da demora na conclusão do inquérito e da necrópsia não determinar a causa da morte, o promotor Sogaiar afirmou que as inúmeras contradições de Mauro Janene Costa em seus depoimentos o incriminam e demonstram ‘‘que sua palavra não tem credibilidade’’.
Em seus depoimentos, Mauro Janene insistiu na versão de que a professora morreu ao cair da sacada, depois que ele a pegou pelas canelas e ficou ‘‘brincando’’ com ela, pendurado no peitoril. ‘‘Se levarmos em consideração apenas a versão dele, que tecnicamente foi comprovado ser absurda, já temos um caso de homicídio de dolo eventual’’, afirmou o promotor.

mockup