Caso de aborto pode ter sido negligência
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segunda-feira, 24 de julho de 2000
Telma Elorza De Londrina 
A Polícia Civil de Londrina está investigando uma possível reviravolta no caso do feto encontrado no banheiro do pronto-socorro da Santa Casa de Londrina, na madrugada do último dia 19. A Folha recebeu denúncia que a gestante teria dado entrada no hospital com dores fortes e hemorragia e teria sido atendida por uma médica, abortando logo após ser medicada. O delegado do 1º Distrito Policial de Londrina, Valter Martins Lemos, responsável pelo inquérito, disse que irá apurar a denúncia repassada a ele pela reportagem.
A menor S., de 17 anos, ligou para a Folha ontem para contestar as informações publicadas na matéria no último dia 22. Como a Santa Casa não tem registro de nenhuma gestante se a moça foi atendida? Até eu, que estava lá no dia e sou leiga, percebi que ela estava grávida, afirmou. Segundo S., a própria equipe de enfermagem sabia quem era a pessoa que tinha abortado no banheiro. No rebuliço da descoberta do feto, o pessoal da enfermagem comentou o caso.
Segundo S., ela estava no hospital acompanhando uma amiga quando uma moça, identificada apenas por Cristiane, chegou carregada por um rapaz e na companhia de outra moça, gritando de dor. Ela estava tão mal, que a minha amiga cedeu a vez para ela ser atendida primeiro, contou. De acordo com S., ela e amiga ficaram conversando com Cristiane por algum tempo e ainda a viram ser medicada. Ela nos falou que estava com muita cólica e que a médica tinha receitado Buscopan na veia, disse.
De acordo com a menor, após a medicação Cristiane teria entrado no banheiro juntamente com sua acompanhante. Da sala de espera a gente ouvia gritos de dor e, logo depois, a outra moça saiu do banheiro chorando, lembrou. Segundo ela, os gritos continuaram por mais algum tempo. Em nenhum momento alguém da enfermagem foi lá ver o que estava acontecendo, garantiu.
A adolescente afirmou que Cristiane saiu do banheiro e ainda ficou um tempo sentada na sala de espera. Depois, ela foi até a porta do consultório e perguntou para a médica se podia embora, já que a dor tinha passado. A médica liberou sem fazer perguntas, contou. A amiga de S. teria sido a primeira pessoa a utilizar o banheiro após a saída de Cristiane e viu o feto no vaso sanitário. Ela me chamou e a gente avisou a enfermeira. No tumulto que seguiu, ouvi a médica dizer que a moça não teria deixado examiná-la.
Segundo o delegado Walter Lemos, a denúncia de S. é a primeira pista. Até agora, estávamos trabalhando sem base nenhuma já que a Santa Casa dizia não ter registros de gestantes atendidas naquele dia. Vou passar uma ordem de serviço, ainda hoje (ontem) para que os investigadores localizem essa Cristiane, afirmou. O delegado disse que a denúncia pode mudar a tipificação do delito, de aborto para negligência e imperícia médica. Se a médica deixou de dar assistência ou deu medicamentos que colaborassem para o aborto, deve ser responsabilizada. Apesar disso, essa moça, Cristiane, não é totalmente inocente. Se fosse vítima, já teria vindo à delegacia registrar o caso, explicou.
A assessoria de imprensa da Irmandade da Santa Casa de Londrina (Iscal), disse que o hospital não vai mais se pronunciar sobre o caso. O Instituto Médico-Legal (IML) e Instituto de Criminalística de Londrina ainda não concluíram os laudos técnicos.


