''Fazemos uma média de 90 cirurgias por mês em Londrina e região. Já tratamos muitos ferimentos feitos por armas brancas e armas de fogo, que às vezes também causam lacerações no coração. Mas um caso como esse, foi a primeira vez que vimos.'' Assim o cirurgião cardíaco Alexandre Noboru Murakami, que integra a equipe do Serviço de Cirurgia Cardíaca do Norte do Paraná, define a surpresa ao se deparar com o caso da mulher que introduziu duas agulhas de costura no coração, na última sexta-feira. Ela foi operada por Murakami na noite daquele dia, em um hospital de Londrina, onde encontra-se em recuperação.
A paciente tem 46 anos e é moradora de Tamarana (sul de Londrina). Ela foi levada ao pronto-socorro pelo Samu, apresentando queda de pressão e falta de ar. Uma tomografia revelou aos médicos a gravidade do caso: havia coágulos e excesso de sangue entre o pericárdio e o coração, levando a uma compressão do órgão e impedindo que ele batesse normalmente. Tecnicamente, o problema é conhecido como ''tamponamento cardíaco'', e pode levar à morte se o socorro não for rápido.
Se as agulhas tivessem apenas furado o músculo, provalmente a paciente não tivesse corrido tanto risco. O que agravou o quadro, segundo o médico, foi que uma das agulhas fixou-se na parede toráxica e, com os movimentos contínuos do coração, foi ferindo-o no ventrículo direito, provocando um grave sangramento. ''Provavelmente ela viria a óbito em um curto intervalo, talvez uns 30 minutos'', avalia Murakami.
Chama a atenção no caso o fato da mulher ter conseguido introduzir as duas pequenas agulhas em um órgão que não fica tão próximo à epiderme. ''Havia um espaço de sete a oito centímetros que foram percorridos pelas agulhas, o que leva a crer que ela utilizou algum outro instrumento para pressioná-las a chegar até o coração'', informa o cirurgião.
Segundo ele, o local onde as agulhas foram introduzidas - por baixo do osso esterno - também impressionou a equipe médica. ''Se não se tratasse de uma pessoa simples, moradora de um município essencialmente rural, poderíamos achar que ela tem conhecimentos de anatomia. Mas provavelmente foi uma coincidência. Ela tentou atingir o coração e conseguiu.''
Ainda de acordo com Murakami, durante as investigações sobre o estado clínico da paciente foi constatado que ela mantém, já há algum tempo, uma agulha sob o couro cabeludo, na região temporal. Após a cirurgia, a mulher permaneceu em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por três dias, mas já está no quarto e não corre risco de morte.
No final do ano passado causou comoção no País a história de um bebê de 2 anos do interior da Bahia que teve quase 30 agulhas introduzidas em seu corpo em um provável ritual de magia negra.

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