Noite do dia 12 de julho de 1996. Exatamente dois anos atrás. Cristian César Moretto, na época com 18 anos e vestibulando do curso de medicina, fecha o livro em que ficou debruçado durante horas e resolve sair de casa com alguns amigos. Estava cansado e pretendia relaxar. O destino é uma lanchonete da Vila Siam, zona leste de Londrina, onde logo reconhece e cumprimenta uma amiga, a quem tinha sido apresentado dias antes.
Joel Queirós, que estava sentado à mesa junto com o irmão Rubens Queirós e a moça, interpreta o cumprimento de Cristian como uma ‘‘cantada’’ e faz provocações. O estudante prefere não arrumar confusão, dá as costas e tenta ir embora. Imediatamente, Joel e Rubens sacam duas armas - um revólver cada um - e atiram contra o estudante, que é atingido nas nádegas. Dois amigos dele também são feridos a bala. Os irmãos Queiróz fogem em seguida.
Cristian Moretto morreu no Hospital Evangélico de Londrina nove meses e cinco dias depois do crime, em consequência dos ferimentos provocados pela bala. O projétil perfurou o intestino grosso, provocando infecção generalizada, crise renal aguda, convulsões e coma. Ele ficou três meses internado numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
A morte do estudante marcou o início de uma luta incansável da família por justiça. Dois anos depois, a grande revolta da mãe, do pai e do irmão do estudante é que os irmãos Joel e Rubens Queirós - reconhecidos por várias testemunhas que estavam na lanchonete e que confessaram a autoria do crime à polícia -, permanecem em liberdade, levando uma vida absolutamente normal. Na verdade, nunca foram presos.
‘‘É doloroso perder um filho de forma estúpida, brutal e conviver com essa situação sabendo que os culpados estão aí, como se nada tivesse acontecido. Mas essa luta eu levo até o fim, não vou parar’’, diz com convicção a funcionária pública estadual Nadir Pereira, mãe de Cristian.
Nadir Pereira lembra que nos primeiros meses de tratamento, Cristian se dizia revoltado em estar vivendo aquela situação sem ter culpa de nada, sem ter provocado ninguém. Em pouco tempo, porém, o quadro clínico foi piorando, por causa da infecção. Ele começou a perder a consciência e passou a levar uma vida vegetativa, até morrer.
‘‘Quase não acredito que passei por tudo isso, nem parece que é comigo. É lutar, lutar e depois perder’’, lamenta Nadir. Ela completa: ‘‘Enquanto ele esteve vivo, existia uma dor, uma revolta muito grande pelo que aconteceu. Mas naquele momento a única preocupação era com o Cristian, a gente só vivia em função dele. Quando ele morreu, a luta pela sobrevivência deixou de existir e a revolta aflorou’’.
A partir de então, a família passou a acompanhar de perto os caminhos (ou descaminhos) que o caso tomou na justiça. O silêncio da dor também foi quebrado quando Nadir buscou a imprensa para denunciar a falta de punição aos acusados do crime.
Apesar do destaque que o caso ganhou na mídia e a evolução do processo, Nadir afirma que não vai relaxar enquanto não ouvir o juiz lendo a sentença. ‘‘É o mínimo que eu posso fazer como cidadã. Não quero perder duas vezes. Vou lutar até o fim, até a condenação. Aí sim vou me sentir com o dever cumprido’’.

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