Cascavel quer mudança de mentalidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de dezembro de 1997
Paulo Pegoraro Cascavel 
Edson MazzettoPóloCom 219 mil habitantes, Cascavel é ponto estratégico no corredor do Mercosul; pelo município passam as principais rodovias do EstadoO Município de Cascavel completa hoje 45 anos de emancipação. Com 219,62 mil habitantes segundo o IBGE, mas 250 mil segundo parâmetros como número de eleitores, a cidade tem posição geopolítica importante no contexto estadual. Cascavel está às margens do corredor do Mercosul (a BR-277), é entroncamento de várias rodovias nacionais, sedia o terminal da Ferrovia Paraná Oeste, é centro universitário e detém as principais sedes regionais dos serviços públicos estadual e federal.
Edson MazzettoSalazar Barreiros:
Quem não se
atualizar, será
ultrapassado
As comemorações do aniversário têm motivado reflexões de autoridades e lideranças da comunidade sobre a necessidade de que o desenvolvimento econômico e social do município seja fomentado por propostas modernas, com mudança de mentalidade, como observa o prefeito Salazar Barreiros (PPB). Segundo ele, métodos antigos de administrar, fazer negócios ou se relacionar na sociedade já geraram prejuízos para Cascavel, que inclusive perdeu investimentos de grandes empresas que pretendiam se instalar na cidade.
Os que defendem esta nova mentalidade sabem que há muito a avançar. Cascavel teve seu período de colonização marcado pela disputa pela terra, com episódios violentos. Já nos tempos modernos, uma de suas características é a quase permanente disputa político-partidária e entre grupos poderosos da sociedade, em vários campos. Importantes efetivações, como a Universidade Estadual do Oeste, Hospital Regional, Ferrovia Paraná Oeste, e até mesmo o projeto do novo aeroporto, foram marcados por processos polêmicos.
Edson MazzettoEduardo Marassi:
Mentalidade
retrógrada não
está superada
As eleições historicamente ocorrem sob acusações de fraudes e compra-e-venda de votos, inquéritos, processos e tentativas de anulação de resultados, e os eleitos e derrotados acumulam mágoas. As agressivas disputas (como na última eleição) invariavelmente têm causado prejuízos, com a cidade dividida. A própria representatividade é inexpressiva - com mais de 140 mil eleitores, Cascavel tem apenas um deputado federal e um estadual.
Setores do empresariado também têm defendido interesses exclusivistas. Grupos de fora chegaram a ser barrados, com apoio de políticos, em sua pretensão de se instalar na cidade. O caso mais notório é da Frigobrás/Sadia. Recentemente, uma feira de confecções de Santa Catarina, com preços abaixo do comércio local, enfrentou a hostilidade (inclusive ato de protesto) de comerciantes. Eles tentaram apoio do prefeito para que inviabilizasse a feira, mas ele se recusou.
Uma universidade particular com campus em várias cidades do Paraná preparava-se para se instalar na cidade, o que provocou articulação de empresários locais concorrentes. Eles utilizaram-se de políticos com trânsito em Brasília para fazer lobbie contra no Conselho Federal de Educação. A própria Câmara de Vereadores criou há poucos dias uma situação que rendeu muitas críticas, ao alterar lei municipal de 93 que garantia bolsas de estudo para alunos carentes em cursos superiores de uma instituição privada.
A concessão das bolsas foi uma compensação ao fato da instituição ter recebido terrenos para construir seus prédios e isenções fiscais. A Câmara votou projeto acabando com o benefício, obrigando o prefeito Salazar Barreiros a vetá-lo por convicções pessoais e pela grande repercussão negativa junto a opinião pública. Embora não se referindo especificamente sobre este caso, Salazar afirma que a questão do mando de gente influente, que determinava as coisas e até impedia concorrentes, em nosso governo não tem condições de existir.
Salazar diz que ouve com tristeza relatos do coronelismo, de mandar na cidade, e observa que aqueles que não se atualizarem ficarão ultrapassados. O prefeito destaca por exemplo uma iniciativa conjunta de empresas da construção civil que conseguiram o certificado de qualidade ISO 9000. É exemplo de modernidade, idéias evoluídas e busca de competitividade. Na própria prefeitura, ele destaca o Programa de Qualidade envolvendo todo o funcionalismo para a melhoria do serviço público.
Assustado O vice-prefeito Eduardo Marassi (PFL) lembra o caso da universidade que pretendia se instalar na cidade e se diz assustado com este tipo de situação. Para ele, é inadmissível alguém querer reserva de mercado e trabalhar contra os interesses da comunidade.
Marassi acreditava que isso fosse coisa do passado. Reconheço que, infelizmente, essa mentalidade retrógrada ainda não está superada. Isso se agrava quando se sabe que pretendemos ter aqui um dos mais importantes centros universitários do Paraná.
O presidente da Associação dos Jornalistas Antonio Sbardelotto, concorda: A questão do mando sempre existiu e tem impedido investimentos. Ele lembra o caso do complexo da Frigobrás/Sadia, o maior frigorífico da América Latina, que só se instalou na vizinha cidade de Toledo porque não encontrou apoio em Cascavel. Não vejo sinais concretos de que esse tempo passou. As idéias de muitas lideranças são as mesmas de 30, 40 anos atrás, acrescenta, frisando que exceções são insuficientes para mudar a mentalidade dominante.
Para Antonio Sbardelotto, também o problema do desemprego, grande dilema do mundo nesta época de globalização, tem a ver com a falta de atrativos oferecidos a investidores de fora, que poderiam se instalar em Cascavel. Quantas indústrias de porte vieram para cá nos últimos anos? Nenhuma, indaga e responde ao mesmo tempo, atribuindo a causa ao fato de o Município não ter oferecido praticamente nenhum incentivo, e limitar-se ao fato de estar localizado no centro de um mercado emergente que é o Mercosul.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de Cascavel, Pedro Boaretto, afirma que a questão do mando na cidade não é problema exclusivo, é de qualquer cidade, e quanto menor mais ela está sujeita às pressões individuais ou de grupos. Boaretto observa que devem ser criadas condições para que este tipo de comportamento deixe de existir definitivamente, mas acrescenta que uma nova mentalidade já se instala, consequência natural do crescimento que o município apresenta.
O presidente eleito da Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil Maurício Vieira questiona a falta de consciência das elites e das administrações municipais que se sucederam, em relação à educação básica, assim como ocorre em todo o País. Segundo ele, isso não atende às demandas de uma sociedade moderna. Maurício Vieira diz porém que a consolidação de Cascavel como centro universitário é um dos fatores que devem auxiliar a criar uma nova mentalidade, por representar alargamento de horizontes.
O presidente da Câmara de Vereadores Misael Pereira (PMDB) diz que interesses particulares já atrapalharam demais o desenvolvimento, mas considera que fica cada vez mais difícil colocar interesses próprios em primeiro plano, porque a sociedade estaria mais consciente de seus direitos e começa a cobrar, reivindicar e lutar. Para Misael, isso ocorre em relação à iniciativas do setor privado e na administração pública - embora, no caso da Câmara, persistam práticas como a relacionada às bolsas de estudo suprimidas.


