Nicolau Obladen Pelo menos 150 mil pessoas sobrevivem como catadores de lixo para reciclagem na América Latina. A estimativa foi divulgada ontem, em Cascavel, no Seminário Internacional sobre Coleta Seletiva e Reciclagem de Resíduos Sólidos Urbanos. O evento foi iniciado quinta-feira e termina hoje, no Parque Agrotecnológico.
A experiência da Argentina na organização dos catadores (‘‘cirujas’’, naquele país) foi relatada ontem no seminário, organizado por fundações tecnológicas do Oeste paranaense com apoio de órgãos oficiais, por Osvaldo Cipolloni, 37 anos, organizador de cooperativas de trabalho como a ‘‘Los Carrineros’’ (Os Carrinheiros), de Córdoba, capital da província do mesmo nome, na região central do país. Segundo o químico Mário Bracht, de Cascavel, o modelo argentino pode ser aproveitado por cidades da região que organizam programas de coleta e reciclagem.

Edson MazzettoAtividade informalParte dos catadores de lixo reciclável da Argentina está organizada em torno de cooperativas; ao lado, o argentino Osvaldo Cipolloni, participante do Seminário Internacional sobre Coleta Seletiva e Reciclagem de Resíduos Sólidos UrbanosCórdoba, segunda em população na Argentina, tem cerca de 1,3 milhão de habitantes e a estimativa é de que diariamente sejam geradas mil toneladas de lixo, das quais cerca de 75% domiciliar. Há pelo menos mil ‘‘cirujas’’ - o termo também é usado para mendigos ou desocupados - e desse total 100 são filiados a cooperativa, criada em 88. Juntos, os catadores recolhem mais de duas toneladas de papel, vidro e metais para reciclagem. Eles recebem 5 centavos de dólar por quilo de lixo reciclável e a cooperativa revende por 10 centavos de dólar. A sobra é retida para cobrir os custos operacionais da cooperativa e os lucros são distribuidos ao final do exercício.
Os não-cooperados recebem apenas 3 centavos de dólar, pagos por terceiros. ‘‘Esses outros compradores os logram, adulterando a balança, e em troca os catadores molham os montes de papel para aumentar o peso’’, relatou Cipolloni. Além disso, os não-cooperados estão mais sujeitos à ação de fiscais e policiais, que tentam impedi-los de circular com suas carroças puxadas por cavalo.
Na Argentina, a lei estabelece que os resíduos urbanos são formalmente propriedade do Estado, a quem cabe fazer concessão à pessoas jurídicas para a coleta. Por isso, há geralmente repressão aos catadores, ao contrário do que ocorre no Brasil, onde esses trabalhadores atuam livremente.
‘‘Na Argentina a atividade é ilegal, mas real, e alimenta a economia informal e negócios de vulto’’, disse Cipolloni. A abrangência dos negócios é tão grande que apenas em Córdoba há 25 depósitos de compra de resíduos. No país há empresas que compram contêineres de papel para reciclagem dos Estados Unidos, pagando 7 centavos de dólar por quilo.
Uma fábrica de latinhas para refrigerante paga aos catadores argentinos 80 centavos de dólar por quilo de alumínio. ‘‘O lixo acaba sendo negócio de alto interesse e tudo começa na ponta, onde estão os catadores, pois a soma do que cada um recolhe enche contêineres, jamantas ou vagões’’, comentou o cooperativista. Mas a renda média mensal dos catadores argentinos é de apenas 150 dólares, para um salário mínimo no país de 200 dólares.

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